Vetor Entrevista: Cais Niara
Cais Niara vai ocupar o mundo, um continente de cada vez. A DJ e promessa da cena eletrônica brasileira inaugura uma nova era, voltando ao Brasil após uma turnê badalada pela Europa
Texto e entrevista por Pedro Paulo Furlan

Fotografia por Akin Cristino
São Paulo, 9h. Para Cais Niara, a pista não é somente um local de cultura, de diversão, de troca social, mas, sim, o sítio de um ritual. DJ e, mais recentemente, produtora musical, Cais acaba de voltar de sua primeira turnê solo na Europa, e já engata essa movimentação com uma nova era em sua carreira.
“[Essa tour] mudou minha vida, mudou a forma como eu vejo a minha carreira, mudou o meu lugar como artista no mundo. Me fez ter uma visão muito mais ampla do espaço que quero ocupar dentro da nossa cena”, ela me diz.
Em nossa conversa, Cais Niara volta ao início - sua criação no Assentamento Zumbi dos Palmares, no interior de São Paulo - e passa por todas as etapas da sua relação com a música, para contextualizar o que vem por aí. Projetando ampliar sua pesquisa sonora, lançar seu primeiro EP e fazer mais uma turnê internacional, Cais promete: “Quero ocupar o mundo, sabe?”.

Fotografia por Akin Cristino
Força da natureza
Como citado anteriormente, Cais nasceu no interior paulista e foi criada no Assentamento Zumbi dos Palmares, “vivendo uma realidade bem conectada com um Brasil profundo, um tempo diferente do da metrópole”. Crescendo sem energia elétrica, a futura DJ conheceu o mundo da música pop e eletrônica ao voltar para Campinas, sua cidade natal, no ensino médio.
Se descobrindo enquanto travesti, Cais Niara conta que aos poucos foi se apaixonando pela arte e descobrindo sua potência enquanto artista. “Na escola, virei uma bicha provocadora, pintava minhas roupas, escrevia coisas na camiseta. E aí me conecto com a moda, especialmente nesse local da expressão do corpo no mundo”, ela conta.
“Sempre gostei disso, de usar o meu corpo como arte também, do meu corpo como algo que causasse esse tipo de interação mais provocativa da arte”.
Aos 17, Cais entrou na faculdade de moda da USP e conheceu o lado acadêmico da moda - mas, realmente, apaixonou-se pela cena noturna que conheceu na capital. Relembrando noites passadas regadas a álcool barato no centro sujo de São Paulo, Cais me conta que ali se conectou com as pessoas que realmente a inspiravam artisticamente.
“O que mais me chocou, o que mais me brilhou os olhos, foi a rua, foram as pessoas que habitavam a noite, as pessoas que provocavam gênero, que expressavam moda de uma maneira muito mais real”.
Nesse momento, Cais conheceu Linn da Quebrada, com quem toca até hoje. Uma de suas conexões mais profundas, foi Linn que a incentivou a começar a tocar - inclusive a presenteando com uma controladora. Morando com a cantora, na pandemia, a DJ apaixonou-se cada vez mais pela música, saindo daquele momento como uma das maiores promessas da cena.

Fotografia por Akin Cristino
Solo na Europa
Mais cedo nesse ano, a artista embarcou em sua primeira turnê solo pela Europa, dando um headstart nessa que ela tem chamado de sua nova era. Cais Niara tocou em diversos países e palcos, inclusive no lendário Whole Festival, um dos maiores espaços de música eletrônica queer no mundo.
“Sinto que essa turnê foi um encerramento de um ciclo e o cumprimento de uma profecia [...] fui muito incentivada pelas minhas amigas a fazer esse movimento e fui muito bem recebida por essas artistas, por essas amigas que conheci anos atrás, que bebiam comigo na Roosevelt, que ficavam pela madrugada ali, sentadas no escadão, sem um real para voltar para casa. E que agora são grandes DJs, grandes artistas”.
Durante nossa conversa, Cais relembra alguns momentos marcantes dessa passagem, dando destaque para Paris, Londres e Berlim.
O primeiro dia em Londres foi um momento de muito stress pra artista, mas que resultou em um dos episódios mais reconfortantes da turnê. Depois do local onde ficariam hospedadas não dar certo, Cais Niara - que estava acompanhada por Vita Pereira e por sua equipe - conta que tudo deu certo por causa de sua amizade com a artista DRYBABE, que cedeu sua casa para eles ficarem durante a viagem. “Foi muito bonito, ela entregou a chave da casa dela na nossa mão, acolheu a gente da melhor forma, sem nem ter me conhecido pessoalmente”, relata.
Paris e Berlim também foram momentos de aprendizado e diversão para Cais Niara. Na lendária Berghain, a artista conta que viveu uma das noites mais marcantes de sua vida na cena - entrando sozinha na boate exclusiva, Cais conta que encontrou diversos brasileiros lá dentro e se conectou com eles, sentindo-se abraçada pelo calor do Brasil mesmo do outro lado do mundo.
Enquanto isso, em Paris, a artista levou um pouco do funk paulista para o público francês, que está mais acostumado com a vertente carioca. “Naquele momento, consegui de fato entender o que eu queria propor, que era ser provocativa, mas também que trazer algo que eles poderiam acolher, que é uma linguagem que pode ser absorvida com facilidade”, afirma.

Fotografia por Akin Cristino
Trilhando o caminho de suas inspirações
Voltando ao Brasil, Cais Niara senta comigo para relembrar essa turnê e diz que esse momento marcou uma reconfiguração para ela. “Acho que o mais importante para mim foi perceber, ainda mais, o meu lugar dentro de um uma engrenagem muito maior que eu”, afirma ela sobre seu lugar na cena.
Citando Paulete Lindacelva, Omoloko e BADSISTA como suas maiores inspirações, a artista afirma que aprendeu com eles a importância de levar a sério seu local como mestre de cerimônias e da sacralidade da pista de dança.
“É uma oportunidade de estar em comunhão com as nossas, com quem a gente se sente confortável para dançar, para curtir, para beber. Nesse momento, para mim, o mais mágico é ser a pessoa que vai propor a o som, é uma puta responsabilidade”, ela afirma: “A pista é sagrada, é o lugar da dança, da conexão, e a música é minha linguagem”.
Planejando lançar seu primeiro EP ano que vem, o maior objetivo na lista de Cais Niara é conquistar o mundo com sua música, nem que seja um país, um continente, um hemisfério de cada vez.
“Agora quero viajar o Brasil, conhecer ele todo, para poder aí de fato conquistar o mundo, né? Com o meu EP pronto, com uma turnê no Brasil no verão, daí eu vou para a Europa bem carregada, bem nutrida, bem documentada, bem tranquila. Fazer uma turnê na Europa com mais datas, talvez até dar um pulo na Ásia, quem sabe?”, ela finaliza.

Fotografia por Akin Cristino
Créditos
Foto: Akin Cristino @akin.creatormobile
Prod. Executiva: Zalu Amorim @zalu_amorim
Retouch: Fábio Junior @affbio
Make & Hair: Franka @frakabeaute
Stylist e direção criativa: Isac Leite @isacisac
Looks e Acessórios: @garrra.s, @isacisac, @0br1g0n, @fahed_kahila, @rolling_brand @carlospenna.design, @ewdwardz, @brabo.br
Direção de Arte: Matheus de Luca @eu.matheusdeluca
Comunição: Luisa Talulah @luisatalulah
Assessoria de imprensa: Pedro Paulo @redimprensa
Produtora: Trinco Produtora Look 1: Body: @rolling_brand
Brincos: @garrra.s Look 2:
Look: @0br1g0n
Luva: @fahed_kahila
Meia: @rolling_brand
Acessórios: @carlospenna.design
Look 3:
Saia: @ewdwardz
Meia-calça: @rolling_brand


