Vetor Entrevista: Leona Souki
Lançando “SOUKISOU” em maio, a artista - marco fundamental da cena noturna mineira - dá um passo na direção de seu maior sonho e reitera seu destino como artista musical.
Texto e entrevista por Pedro Paulo Furlan

Fotografia por Gavioli
São Paulo/Belo Horizonte; 14h30. Desde criança, Leona Souki sabia que iria ser artista. Um dos nomes mais conhecidos da noite mineira, a cantora, compositora, DJ e atriz recentemente lançou seu primeiro EP “SOUKISOU”, pela Tandera Records, e, com ele, reitera seu destino artístico.
Explorando uma sonoridade dupla, entre o eletrônico underground da cena que a abraçou, e o pop infectuoso da cena onde surgiu Leona, o projeto a introduz como uma popstar da vida noturna. Com quatro faixas e um leque amplo de produtores, o EP “SOUKISOU” introduz uma artista que equilibra rimas audaciosas com uma sede de cumprir com seu sonho.
Nascida em Minas Gerais, com uma família dividida entre as artes e a religiosidade, Leona me conta que suas primeiras memórias são se imaginando em um palco, cantando para muitos. “Fui alfabetizada pelas grandes divas”, ela aponta, acrescentando: “Sempre amei o glamour do pop e me imaginei lá em cima, com o microfone na mão, na frente de toda aquela plateia” - ela só não sabia como iria chegar lá.
Com um tio drag queen, Leona narra que cresceu “atrás das cortinas e dentro das coxias do teatro”, criando muito gosto pela arte performática e aproximando-se aos poucos da feminilidade. Até mesmo no outro lado de sua vida, com seu pai que a levava para a igreja, ela encontrou uma maneira de performar, fazendo parte do grupo de louvor e do coral.

Fotografia por Gavioli
Aos 15 anos, durante o primeiro boom de “RuPaul's Drag Race”, a artista começou a se montar em segredo junto a um amigo da escola, e foi assim que nasceu Leona Souki. “Postava tudo em segredo, porque eu ficava com aquele medo, né? Meu tio já era um grande artista, então pensava se eu ia ser ridicularizada pela minha própria família - além do fato de ser uma pessoa LGBTQIA+”, aponta ela.
“Com 16 para 17, fiz uma identidade falsa e já comecei a trabalhar como drag - e foi através dessa arte que me descobri travesti. É como eu sempre falo”, Leona me conta: “Quando me montei pela primeira vez, na Eleganza, aqui em BH, nunca mais me desmontei”.
O abraço do underground + sua jornada como DJ
Nesse momento, Leona Souki começou a criar um nome inegável na cena mineira, especialmente no espaço do pop, tornando-se um destaque da noite de BH. Mas, como foi no mundo inteiro, a pandemia chegou como um baque - sendo um momento em que ela teve que se voltar para si mesma e em que ela descobriu um outro universo cultural: o underground.
Ao lado de um de seus melhores amigos, o produtor e DJ Albukkerke, da Horny, festa mineira, a artista chegou ao fim da pandemia já trabalhando no underground como performer. “Eu ficava louca, parecia que tinha descoberto um outro lugar, onde a liberdade criativa era maior e onde eu podia ser como eu sempre fui, sem restringir minha personalidade”, ela me conta, sobre esse primeiro contato.
Foi nessa instância também, que Albukkerke a convenceu a começar a discotecar, mundo pelo qual ela não se interessava muito antes. “Foi uma surpresa muito grande, mas, me vi apaixonada fazendo algo que eu nunca tinha imaginado antes, que era a discotecagem”, ela afirma, dizendo que aos poucos se viu mais e mais engajada como DJ, viajando pelo país com seus sets e adentrando cada vez mais na cena - conhecendo, inclusive, o pessoal da Tandera Records.

Fotografia por Gavioli
O retorno ao sonho + o que chega com “SOUKISOU”
“Meu sonho de ser cantora vem antes de minha carreira enquanto DJ”, Leona Souki me diz, contando que, em um momento no ano passado, Alírio e Tuxe - donos da Tandera - a convidaram a lançar seu primeiro EP pela gravadora underground. “Acho que eles já acreditavam no meu projeto, e foi uma colaboração perfeita, porque, no fim, era tudo novo para todo mundo, sabe?”, afirma.
“Tinha uma insegurança muito grande nesse lugar de cantar, era algo tão forte, tão dentro de mim, que me amedrontava muito. Mas, eu precisava quebrar esse bloqueio, é meu grande sonho”.
Aos poucos cumprindo seu sonho de tornar-se sua própria versão de diva pop, Leona se viu em maio desse ano, com o lançamento oficial de “SOUKISOU”. Afirmando que, ao completar 30 anos, a cantora vê esse projeto como uma virada decisiva de carreira e visão artística: “Coloquei esse projeto num lugar de decisão, se ele for bom, tiver qualidade, receber resposta do público, vou entender que é isso, estou no caminho certo”.
Completamente cumprindo com suas expectativas, a artista diz que foi um caminho longo, mas, chegou em um produto pelo qual é apaixonada. “Sou uma pessoa que enquanto eu não gosto e eu não acho que tá bom, eu não consigo não tentar até eu me exaurir, entende?”, declara.

Fotografia por Gavioli
Com um legado inegável na cena mineira - e na nacional - Leona também reflete sobre a expectativa de outras pessoas sobre ela: “Tem pessoas trans que se inspiram em mim e essas pessoas se sentem muito acolhidas por mim, então, tenho uma sensação de responsabilidade muito grande”.
Finalizando nosso papo, Leona conta que planeja lançar uma versão deluxe do EP e um curta visual com as quatro faixas, apresentando um outro lado artístico - e destaca que tudo que ela faz, também é dedicado àquelas pessoas que a apoiam.
“Tenho uma irmã de 11 anos e ela é minha maior fã. É muita gente - e a gente sempre quer que pessoas fiquem orgulhosas, que continuem acreditando em mim”.


