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POMO

há 7 dias
3 min de leitura

A moda como memória e celebração da travestilidade brasileira.


Texto por Elza Mafel



Esqueça a moda que pede desculpas. Se a temporada vinha flertando com a segurança de quem não quer incomodar ninguém, a @lnflama levou a semana para dentro do CCSP, num labirinto escuro de acontecimentos simultâneos, e transformou a passarela numa performance do tempo travesti. O POMO, projeto da diretora criativa K Neves, não veio vender roupas: veio contar o país pelo ponto de vista de quem sempre delegou ele.


O clima de espera já avisava que ali ninguém estava só para ver. A nata criativa paulistana trocava olhares e expectativas, e a luz de @aria_borba fazia o trabalho de personagem: cortes precisos, penumbra densa, focos que revelavam um canto e escondiam outro. Com a cenografia de @georgiandres e os objetos criados em parceria com @ratodistopico, o espaço nunca deixava o olhar descansar, e cada acontecimento parecia respirar por conta própria. A trilha, assinada por @cat.eyeliner, trouxe graves, vozes, ambientações juvenis, silêncios, costurava o ambiente por baixo, como um segundo corpo onipresente para a sala.


O que se viu na performance foi uma resposta às versões que nos contaram sobre a travestilidade. Em vez de um único corpo, um mosaico de gerações: performers de idades diferentes dividindo o mesmo chão, cada uma carregando uma vivência do país no andar. Com direção de movimento de kisha.victoria e  @laymedouglas, elas fizeram o que poucas passarelas ousam pedir: venderam cada look com maestria e, ao mesmo tempo, atuaram no silêncio. Nada de pose, só presença. A plateia entendeu rápido que o barulho ali era outro.


A beleza, assinada por @Holland.vision e sua equipe trouxe beleza finíssimas e um blush rosado que remetia direto a uma memória estética que o Brasil conhece e nunca deveria esquecer. O styling de @naska_regina e @amanamura costurou o conjunto com a precisão de quem sabe que roupa também é documento histórico, e a curadoria de arquivo de @ava__cruz deu lastro de memória a tudo isso. A paleta de cores ao mesmo tempo que conversava bem com o que precisa ser dito/visto, também contava a história do comércio não comercial da noite seguindo o imaginário de K Neves, diretora criativa da marca e do projeto, com a apoio de produção criativa @am4fel & @sinadivina.


O grande xeque-mate da noite, contudo, foi uma barriga de gravidez feita de látex, e estrutura de metal, assinada por @Almaseleno e @liviaaikokamada. Uma modelo trans, desfilou com a barriga de gestante e dela foram puxadas notas de dinheiro com a cara da Lacraia. Foi a síntese de tudo: o corpo travesti como lugar de maternidade, de trabalho, de sustento, de fantasia alheia e de ironia amarga. Ninguém precisou de legenda.


Quando a última silhueta atravessou a escuridão, a sensação era a de ter assistido a uma aula de história disfarçada de espetáculo, e de ter saído dela diferente. O POMO provou que, em uma cena saturada de estética sem conteúdo, a moda ainda pode ser memória, denúncia e celebração ao mesmo tempo. Foi lindo e absolutamente necessário. Exatamente como o futuro deve ser.


Fotografia por Julia Razuk



Fotografia por Tons Moura



Ficha Técnica - POMO

Direção Geral: @inflka

Produção: @sinadivina e @am4fel

Cenografia: @georgiandres

Iluminação: @aria_borba

Som: @cat.eyeliner

Direção de Movimento: @kisha.victoria e @laymedouglas

Multimídia: @vitormoreiran e @asjhkqlzwv

Produção de objetos: @georgiandres @ratodystopic

Assist. de Arte: @sinadivina @deoutrostempos e @circa_tiz

Design: @refruxo e @phar__

Fotografia: @b0yprincess @vitor.du.art @tonsdefoto @bellllato @deoutrostempos @twoplaf

Curadoria de Arquivo: @ava__cruz

Figurino: @originalpunani @jonasddias @ec1ipsa @sinadivina e @digitalvirtualcaos @garrra.s @tuwan.com.br

Prótese corporal cênica: @almaseleno_

Estrutura metalizada: @liviaaikokamada

Styling: @naska_regina @amanamura

Beleza: @holland.vision

Assist. de Beleza: @actedboy @cacotavaris e @ianacunh4

Cabelo: @myahhaym_

Edição de Moda: @inflama

Hostess: @venussilva_

Performers: @safirakalii @ahanhaseoulwillians @mamacitrans @bbelindaramos @marciadailyn @nike.krespischi @qiucheng_qi @rariisima @wayllla @brrunamel @zuri.zatthe @opurocaos @euonikaa @dandi.ofc @almaseleno_ @anxvel e @gariogariogario

Produção CCSP: Ayra, Binha, Guilherme Braga, Nahui e Lui

Técnicos e Montadores de Luz: Fabio, Marquinhos, Marcão, Ivan, João, Paulo e Valdir




 
 
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