POMO
A moda como memória e celebração da travestilidade brasileira.
Texto por Elza Mafel

Esqueça a moda que pede desculpas. Se a temporada vinha flertando com a segurança de quem não quer incomodar ninguém, a @lnflama levou a semana para dentro do CCSP, num labirinto escuro de acontecimentos simultâneos, e transformou a passarela numa performance do tempo travesti. O POMO, projeto da diretora criativa K Neves, não veio vender roupas: veio contar o país pelo ponto de vista de quem sempre delegou ele.
O clima de espera já avisava que ali ninguém estava só para ver. A nata criativa paulistana trocava olhares e expectativas, e a luz de @aria_borba fazia o trabalho de personagem: cortes precisos, penumbra densa, focos que revelavam um canto e escondiam outro. Com a cenografia de @georgiandres e os objetos criados em parceria com @ratodistopico, o espaço nunca deixava o olhar descansar, e cada acontecimento parecia respirar por conta própria. A trilha, assinada por @cat.eyeliner, trouxe graves, vozes, ambientações juvenis, silêncios, costurava o ambiente por baixo, como um segundo corpo onipresente para a sala.
O que se viu na performance foi uma resposta às versões que nos contaram sobre a travestilidade. Em vez de um único corpo, um mosaico de gerações: performers de idades diferentes dividindo o mesmo chão, cada uma carregando uma vivência do país no andar. Com direção de movimento de kisha.victoria e @laymedouglas, elas fizeram o que poucas passarelas ousam pedir: venderam cada look com maestria e, ao mesmo tempo, atuaram no silêncio. Nada de pose, só presença. A plateia entendeu rápido que o barulho ali era outro.
A beleza, assinada por @Holland.vision e sua equipe trouxe beleza finíssimas e um blush rosado que remetia direto a uma memória estética que o Brasil conhece e nunca deveria esquecer. O styling de @naska_regina e @amanamura costurou o conjunto com a precisão de quem sabe que roupa também é documento histórico, e a curadoria de arquivo de @ava__cruz deu lastro de memória a tudo isso. A paleta de cores ao mesmo tempo que conversava bem com o que precisa ser dito/visto, também contava a história do comércio não comercial da noite seguindo o imaginário de K Neves, diretora criativa da marca e do projeto, com a apoio de produção criativa @am4fel & @sinadivina.
O grande xeque-mate da noite, contudo, foi uma barriga de gravidez feita de látex, e estrutura de metal, assinada por @Almaseleno e @liviaaikokamada. Uma modelo trans, desfilou com a barriga de gestante e dela foram puxadas notas de dinheiro com a cara da Lacraia. Foi a síntese de tudo: o corpo travesti como lugar de maternidade, de trabalho, de sustento, de fantasia alheia e de ironia amarga. Ninguém precisou de legenda.
Quando a última silhueta atravessou a escuridão, a sensação era a de ter assistido a uma aula de história disfarçada de espetáculo, e de ter saído dela diferente. O POMO provou que, em uma cena saturada de estética sem conteúdo, a moda ainda pode ser memória, denúncia e celebração ao mesmo tempo. Foi lindo e absolutamente necessário. Exatamente como o futuro deve ser.
Fotografia por Julia Razuk












Fotografia por Tons Moura














Ficha Técnica - POMO
Direção Geral: @inflka
Produção: @sinadivina e @am4fel
Cenografia: @georgiandres
Iluminação: @aria_borba
Som: @cat.eyeliner
Direção de Movimento: @kisha.victoria e @laymedouglas
Multimídia: @vitormoreiran e @asjhkqlzwv
Produção de objetos: @georgiandres @ratodystopic
Assist. de Arte: @sinadivina @deoutrostempos e @circa_tiz
Design: @refruxo e @phar__
Fotografia: @b0yprincess @vitor.du.art @tonsdefoto @bellllato @deoutrostempos @twoplaf
Curadoria de Arquivo: @ava__cruz
Figurino: @originalpunani @jonasddias @ec1ipsa @sinadivina e @digitalvirtualcaos @garrra.s @tuwan.com.br
Prótese corporal cênica: @almaseleno_
Estrutura metalizada: @liviaaikokamada
Styling: @naska_regina @amanamura
Beleza: @holland.vision
Assist. de Beleza: @actedboy @cacotavaris e @ianacunh4
Cabelo: @myahhaym_
Edição de Moda: @inflama
Hostess: @venussilva_
Performers: @safirakalii @ahanhaseoulwillians @mamacitrans @bbelindaramos @marciadailyn @nike.krespischi @qiucheng_qi @rariisima @wayllla @brrunamel @zuri.zatthe @opurocaos @euonikaa @dandi.ofc @almaseleno_ @anxvel e @gariogariogario
Produção CCSP: Ayra, Binha, Guilherme Braga, Nahui e Lui
Técnicos e Montadores de Luz: Fabio, Marquinhos, Marcão, Ivan, João, Paulo e Valdir


