A Cena é a Cidade: O que restou da rua?
- há 18 horas
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Atualizado: há 17 horas
Matéria por:
Pedro Athie Della Manna - Produtor cultural, artista e DJ. Co-fundador e produtor da festa e bloco de carnaval Tesãozinho Inicial desde 2016. Pesquisa a partir da experiência, as imbricações entre festa, corpo e espaço público na cidade de São Paulo.
Entrevistado:
Reinaldo Miranda de Sá Teles - Professor Titular da Escola de Comunicações e Artes da USP e do Programa de Pós-Graduação Mestrado/Doutorado em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades - (FFLCH/USP - DIVERSITAS), onde busca desenhar uma cosmologia negro-brasileira desde as noções de terra e território.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko - Caldo, 2018
Breve introdução a cena “underground” na cidade de São Paulo, seus debates atuais, e futuros possíveis. / Spoiler: ele não existe.
Como viemos parar aqui? Antes de tudo:
A última década trouxe profundas transformações na sociedade e isso ficou evidente na forma como habitamos a cidade enquanto cidadãos. Desde a retomada da direita no poder até a forma como consumimos a internet, que foi dominada pela presença brutal das redes sociais em nossas vidas com a virada do algoritmo que não mais estava ao nosso serviço, e sim o contrário. Uma década que deixou um sentimento de paralisia e que perdurou e ressoa até hoje. A nostalgia de 2016 pra trás é real e muito das festas e ocupações de rua tem a ver com isso, uma coisa ressoa na outra sem sombra de dúvidas.
De 2013 a 2016 a cidade pulsava na rua com o começo e o desenrolar de um movimento fundamental para o crescimento do movimento underground de música eletrônica na cidade. A partir do governo Haddad e seu forte incentivo às políticas públicas e culturais de ocupação do espaço público, junto à demanda da cultura de ocupar as ruas do centro da cidade, de forma mais diversa e livre, surgem coletivos que estavam muito conectados entre si a fim de levar música eletrônica e mais festas às ruas da cidade. O samba, o dub, o reggae, o baile funk e outras cenas já estavam fazendo muita coisa na rua, mas esse movimento tinha um público e sonoridades muito específicas. Mais especificamente na música eletrônica surge o coletivo Voodoohop, amigos que encabeçaram um movimento de ocupar as ruas da cidade e espaços ociosos e até mesmo ocupações por moradia, com o intuito de reimaginar a cena clubber fora do “club”/”balada”, longe dos ingressos pagos e caros, de lugares fechados e limitados, públicos convencionais e homogêneos; eles buscavam principalmente por mais liberdade e diversidade. De forma positiva, podemos dizer que esse momento político e cultural na cidade começou a fomentar muito essa cena de rua e de música eletrônica não convencional, experimental e mais “underground” em São Paulo.
Esse coletivo agregou muitos outros produtores e artistas; uma verdadeira rede de coletividades se formou, e novos coletivos de festas foram nascendo na mesma intenção e toada, como a Mamba Negra, Capslock, Metanol, Calefação Tropicaos, ODD, Venga Venga. Essas festas começaram a fazer ocupações pela cidade toda, com a economia local pulsando, o prefeito incentivando; tudo se tornava viável e possível. Lugares como o Minhocão, Buraco da Minhoca, Ocupação Cine Marroccos, fábricas abandonadas, Funilaria da Rua Deocleciana, Parque Augusta, Praça do Patriarca, Parque Princesa Isabel, Trackers e muitos outros eram frequentemente palcos de festas memoráveis, gratuitas, abertas e extremamente pulsantes artisticamente; eram verdadeiros pontos de encontro entre artistas e palco para experimentações espontâneas e deliciosas. Os clubs foram praticamente deixados de lado por esse público alternativo, em busca de usufruir mais o espaço público e lugares não convencionais, por um tempo.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko - Mamba Negra no SP na Rua, 2018
Surgiu assim o finado SP NA RUA, que foi um movimento desses coletivos em ocupar as ruas e que chegou à prefeitura, de ocupar o centro histórico da cidade com festas que varavam a madrugada, uma espécie de Virada Cultural dessas festas e coletivos independentes que estavam fora do mainstream e que necessariamente estavam atuando na rua (essa era a curadoria; participava quem estivesse fazendo festa na rua). Nesse momento as festas já reivindicavam demandas como o uso da rua sem ter que precisar de uma autorização, ou a “lei do psiu” que estava sendo implementada. O SP NA RUA nasce, na verdade, de um pedido de autorização conjunto de diversos coletivos em ocupar as ruas ao mesmo tempo, e aí se cria a ideia aprovada pela então secretária da cultura Karen Cunha. Essa história me foi contada por uma grande articuladora cultural e musical da época, Pi Chiaretti, e ela tem nuances e histórias maravilhosas dessa época e desse movimento que podem ficar para outro momento.
Eis que, ao longo dos anos, e mais especificamente a partir de 2017, a prefeitura e o governo do estado mudam; as festas começam a ser marginalizadas, a forma como lidavam com o centro e a região altera bruscamente a paisagem. A Rua Augusta passa por um processo ainda mais intenso de gentrificação; a cracolândia começa a sofrer cada vez mais perseguição e represálias violentas e, consequentemente, a se espalhar pela região; as ocupações por moradia voltam a ser extremamente reprimidas e perseguidas; e o centro volta a ser marginalizado, ainda que sob o pretexto de estar sendo “revitalizado”. Isso tudo resulta na piora da violência e pobreza na região central, na perseguição contra as festas de rua e, consequentemente, em sua inviabilização em muitos momentos. Inclui-se nessa perseguição, inclusive, até clubs que não tinham interesse em perder seu capital de ingressos caros e queriam ver a cena do espaço público morrer por conta disso.
Assim, as festas deixam de existir nas ruas e voltam a se “esconder”; o SP NA RUA desaparece do calendário de eventos da cidade e o espaço público começa a sofrer grande esquecimento por parte das festas e do estado. (Isso não quer dizer que o valor e economia dos clubs não interessavam, muito pelo contrário; a noite e a liberdade que se busca no movimento lgbtqiap+, queer e dissidente fazem parte e se criam nos “inferninhos”; ali encontramos, de fato, o primeiro espaço seguro e escondido para sermos quem somos e praticarmos coisas que não são bem vistas ou quistas pela sociedade ao ar livre. Acontece que as festas no espaço público tensionam essa relação da intimidade e liberdade dos corpos, de forma muito saudável, buscando com que possamos ser livres tanto escondidos quanto ao ar livre.) Houve então um movimento interessante, a partir de 2017, das festas continuarem existindo e crescendo, só que agora de volta aos espaços fechados e muito eventualmente nas ruas, cada vez menos nas ruas, ainda que muito acertadamente acontecendo em fábricas abandonadas em que se era possível pagar um aluguel, conseguir alvará (ou não), espaços ociosos, mas tudo cada vez mais custoso, cerceado e difícil.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko
Outro paradigma que se formava nessa época é que, quanto mais os mesmos coletivos pequenos que faziam festa na rua cresciam, menos edições na rua eram viáveis. A conta não fechava. E aí que se instaura uma percepção minha, de quem vos escreve, sobre o problema do cenário político e estético das festas nesse momento; quanto maiores ficavam os palcos, maiores as atrações e as planilhas, mais barreiras iam se criando para um público que ficou órfão da rua, e vice-versa. Cria-se um mal-estar que persiste até hoje na cultura da noite e da música eletrônica em São Paulo. O tiro no pé foi justamente o palco do DJ, que fica mais alto, mais imponente perante o público em uma relação cada vez menos horizontal; o valor dos ingressos; a acessibilidade ou as formas de acesso ao evento; tudo isso era barreira atrás de barreira; tudo que a rua vinha abrindo e permitindo, as festas fechadas vinham e vêm bloqueando novamente. Criava-se uma economia e um modelo de festas que se mostrou insustentável ao longo dos anos.
Isso culmina em uma cena que atualmente pouco se importa com a cidade em que está inserida; uma cena que por muitas vezes competem entre si, festas que são underground até certo ponto, pois estão imersas em lógicas capitalistas, ultra neoliberais e espetaculares, mais preocupadas com a quantidade de público do que com a experiência. Mais além, um público que deixa de ser co-criador da experiência e passa a ser voraz no seu consumo, voraz pelo melhor DJ, pela melhor música, pela melhor experiência individual. Tudo isso aliado à crescente das redes sociais e de como elas invadiram nossas subjetividades e formas de lazer, e vira tudo espetáculo, performance. O problema se torna maior com a questão da voracidade dos megaeventos e festivais e de como eles afetaram a economia local de eventos na cidade, ainda mais pós-pandemia. Piora ainda mais com espaços públicos sendo concedidos para concessionárias privadas, como é o caso do Vale do Anhangabaú no consórcio Viva Vale.
Pois bem, a questão é que a cultura sempre resiste, se renova e se refaz das cinzas e dos piores cenários possíveis, e é por isso que ainda estamos aqui, buscando e comendo pelas beiradas e brechas, algumas fazendo festa na rua, outras sobrevivendo aos trancos e barrancos, outras mais formando novas gerações e se inspirando no que veio antes dessa última década. Apesar de que é verdade que a cena mudou, e nem toda festa que se diz underground cresce junto dos interesses do nosso movimento; muito pelo contrário, parece mais se usufruir dele para conquistar prestígio, lobby e capital simbólico. Enfim, o que estaria acontecendo se todas as festas e coletivos atuais estivessem mais preocupados em realizar edições na rua, no espaço público e ocupações, como vêm fazendo há anos a Batekoo, a Caldo, a Mamba Negra, a Tesãozinho Inicial, a Buero e até festas novas como a Mordida? Como é que estaria esse embate no centro da cidade? Ser underground não era um movimento cultural e político associado a como enxergamos a cultura na urbe, no espaço público, na economia local?

Fotografia por Deltinho + Ivi Maiga Bugrimenko
Pra piorar, e é por isso que proponho aqui um debate mais profundo, existe uma tentativa crescente de debate vazio nas redes sociais em torno da “cena underground eletrônica de SP” e outros tópicos sobre a “noite” em páginas de jornalismo cultural independente. Matérias que afirmam que “a noite morreu”, repletas de informação de IA, que a geração atual parou de beber, um conteúdo raso, distante, esse tipo de coisa. A propósito, todas essas matérias costumam vir sem recortes de classe ou raça, mesmo o Brasil sendo um país de dimensões continentais e extremamente diversificado em suas regiões. A maioria dessas matérias deveria considerar esses recortes e, no mínimo, se basear em dados brasileiros, mas muitas vezes preferem olhar para dados europeus ou norte-americanos e apenas generalizar.
Além disso, a própria cena já debatia bastante, mesmo fora dos holofotes, especialmente antes da pandemia e mesmo no contexto já decadente da cena pós-2017. Muitos caminhos e planos foram traçados para que os coletivos de festas independentes tivessem possibilidades mais concretas e promissoras de futuro. Falava-se muito sobre a construção de uma cena conjunta entre as festas, em datas compartilhadas no calendário para que não ocorressem no mesmo dia, aluguéis compartilhados de locações maiores, mini festivais com vários coletivos em datas comemorativas. Enfim, havia um debate amplo e uma tentativa real de construção coletiva da cena. A pandemia mexeu com tudo e todos. Muita coisa mudou. Novas festas surgiram, outras desistiram de se comunicar, e o debate tornou-se cada vez mais raso e menos frequente. Hoje o que vemos são alguns debates isolados, festas endividadas ou sufocadas por marcas que chegaram no pós-pandemia oferecendo mundos e fundos e que, depois de “surfarem” na onda do underground, voltaram para os grandes festivais ou para festas de grande porte associadas a nomes maiores.
O cenário, como um todo, mudou, e o debate e a crítica não acompanharam esse ritmo. As festas, tanto antigas quanto novas, não parecem de fato olhar de forma crítica para a cidade onde estão situadas e pouco se preocupam com a cultura que envolve muito mais do que público, identidade e curadoria. Então, afinal, o que é de fato o underground e a cena independente, e como isso tudo se relaciona com a cidade? Indo um pouco além, muitos eventos e festas estão acontecendo em prédios do centro, em clubs com bares de preços altos ou com ingressos de entrada elevados, além de locações com valores muitas vezes exorbitantes. Penso que as festas nesses prédios instauram uma nova geografia de ocupação e lazer; o público se distancia da rua e da experiência real do centro. Além disso, muitos desses novos bares ou clubs no centro praticam preços que não dialogam com os moradores da região ou com quem frequenta o centro há tempos. O resultado é um público majoritariamente turístico, que vai até lá para "experimentar" o local, mas não vive o espaço: saem de seus carros (ou apps) direto para ambientes fechados, muitas vezes com vista de cima do centro, sem de fato experienciar o centro.
Mas não pretendo dar um panorama geral de como tudo mudou, pelo menos não assim, e nem sozinho. Vamos tentar entender, ao longo dessa entrevista e mais um tanto de prováveis encontros com esse teor, questões como essas. E, para além disso, procurar compreender a cena independente e underground no contexto da cidade de São Paulo e como ela participa (ou não) das transformações profundas que a cidade vem passando na última década.

Fotografia por AJ Santa Rosa - Tesãozinho Inicial na rua, 2024
Professor, como você enxerga todo esse novo panorama que está se desenhando? Que futuro você prevê para o centro de SP? O que, para você, configura gentrificação nesse processo? No mesmo contexto: como você acha que as festas independentes e os fluxos de música que já ocorrem na região participam dessa transformação? E em que sentido podem contribuir - para piorar ou melhorar - a situação atual do centro?
Pedro, antes de responder às suas perguntas, é importante contextualizar a questão que identifiquei como central para esta entrevista: como enxergo o novo panorama que se desenha no centro de São Paulo e que futuro vislumbro para a cidade.
São Paulo está entre as maiores cidades do mundo e, como muitas metrópoles latino americanas, é marcada por profundas desigualdades, o que torna seu território um espaço permanente de disputa. O centro da cidade, em particular, é fortemente impactado pelas dinâmicas do neoliberalismo urbano. Observa-se que processos de mercantilização do espaço, como projetos de revitalização e valorização imobiliária, tendem a priorizar o lucro em detrimento do uso social da cidade. Nesse contexto, a coexistência de imóveis ociosos com um elevado déficit habitacional configura um cenário típico de despossessão urbana, conceito discutido por Maristella Svampa, no qual populações de baixa renda são empurradas para as periferias enquanto o centro se transforma em ativo econômico, turístico e financeiro. Essa lógica aprofunda a fragmentação socioespacial e restringe o acesso de amplas parcelas da população à cidade.
A meu ver, as ocupações urbanas no centro, organizadas por movimentos como o MSTC, a FLM, o Hotel Cambridge, entre outros, podem ser compreendidas como respostas coletivas ao avanço do neoliberalismo urbano. Elas vão além da simples demanda por moradia, ao reivindicarem o direito à cidade, entendido como o direito de habitar, circular, produzir cultura, brincar e participar da vida urbana central. Muitas dessas ocupações incorporam práticas culturais e de lazer, como eventos artísticos, cineclubes, cozinhas coletivas e festas abertas ao público. Essas ações transformam os espaços ocupados em locais de convivência, sociabilidade e resistência simbólica, exemplificando a noção de territorialização do conflito social, que, para muitos estudiosos do espaço urbano, evidencia que o território não é apenas um espaço físico, mas também uma arena de disputas políticas e de construção de alternativas coletivas.

Fotografia por AJ Santa Rosa - Tesãozinho Inicial na rua, 2024
O público que aceita e participa dessa comunhão é diverso: moradores das ocupações, trabalhadores precarizados, migrantes, artistas, estudantes, pesquisadores, militantes e setores críticos da classe média. Essa diversidade fortalece as ocupações como experiências contra-hegemônicas, ampliando redes de apoio e consolidando práticas coletivas de resistência territorial. Pesquisas que orientei, como a de Lemos, sobre a Cozinha da Ocupação 9 de Julho, e a de Vieira, intitulada Ecos da Liberdade, evidenciam como a organização comunitária e o uso de tecnologias ancestrais possibilitam resistência, preservação de memórias e ampliação da função política e cultural desses espaços.
No que se refere ao lazer, a carência para determinadas camadas da população é gritante. Ainda assim, ele deve ser compreendido como uma dimensão essencial da vida humana, que vai além do descanso ou do entretenimento. Segundo Marcellino, teórico de referência nessa área, o lazer envolve atividades escolhidas conscientemente, carregadas de prazer e significado, constituindo-se como um espaço privilegiado de produção cultural e social. A meu ver, no contexto neoliberal, porém, o lazer tende a se tornar alienado, restrito a bolhas elitizadas que ocupam determinados espaços da cidade. Mais recentemente, o próprio centro de São Paulo não tem escapado dessa lógica, sobretudo com a recuperação de áreas voltadas ao entretenimento mercantilizado, o que acaba por reforçar desigualdades e processos de exclusão.
Em contraposição, o lazer praticado nas ocupações e em outros pontos da cidade, como as iniciativas promovidas pelo coletivo Tesãozinho, além de festas como a Mamba Negra e outros eventos, contribui para a emancipação do sujeito, ao possibilitar reflexão crítica, participação ativa e engajamento social. O risco que se apresenta, à medida que essas experiências ganham visibilidade e escala, é o interesse do próprio sistema em capturá-las, avaliando-as exclusivamente a partir de critérios econômicos e incorporando-as à lógica do mercado. Esse movimento de cooptação pode ser observado, por exemplo, quando grupos que atuam em grandes equipamentos privados, como o Allianz Park, demonstram interesse em licitações para a concessão de espaços públicos como o Vale do Anhangabaú. Nesses casos, evidencia-se a tentativa de transformar práticas culturais e de lazer em grandes negócios, reproduzindo os moldes do urbanismo neoliberal e esvaziando seu potencial crítico e transformador.
Professor, o centro sempre esteve vivo e ocupado, certo? Por que ainda insistem na narrativa de “reocupação” do centro?
O centro de São Paulo nunca deixou de estar vivo e ocupado. Ao longo da história, sempre foi espaço de circulação, moradia, trabalho, cultura e sociabilidade, especialmente de populações populares e grupos periféricos. A narrativa de “reocupação”, no entanto, insiste por motivos estratégicos: ela invisibiliza a presença histórica desses grupos, cria a impressão de que o centro estava “vazio” e justifica intervenções privadas, concessões e projetos de valorização imobiliária. Em outras palavras, essa narrativa serve para transformar o espaço público em ativo econômico e espaço de consumo, enquanto ignora práticas de resistência, sociabilidade e lazer que sempre mantiveram o centro vivo.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko - Mamba Negra no SP na Rua, 2025
Quem quer reocupar o centro?
Quem quer “reocupar” o centro não é quem nunca esteve lá, mas quem passou a ter interesse econômico nele. A narrativa da reocupação é mobilizada sobretudo por setores do mercado imobiliário, do entretenimento, do turismo e da gestão urbana neoliberal, que enxergam o centro como um ativo estratégico a ser explorado. São grandes empresas de eventos, investidores, concessionárias de espaços públicos, empreendimentos culturais privatizados e políticas públicas orientadas pelo mercado que defendem essa “reocupação”. Enquanto isso, os grupos populares, moradores de ocupações, trabalhadores informais, artistas independentes e movimentos sociais nunca deixaram o centro, eles não querem reocupá-lo, mas permanecer, existir e ter seus direitos reconhecidos. Portanto, a “reocupação” não se refere à presença de pessoas, mas à substituição de usos, corpos e práticas, deslocando formas populares de viver a cidade em favor de usos mais rentáveis, controlados e consumíveis. Em síntese, quem quer reocupar o centro são os agentes do capital urbano, e não aqueles que historicamente o mantiveram vivo.
De quem querem tirar o centro?
Ao falar em “reocupação”, o que está em jogo não é devolver o centro à cidade, mas reordená-lo socialmente, substituindo usos populares, informais e coletivos por usos controlados, mercantilizados e rentáveis. Trata-se de um processo de despossessão urbana, nos termos formulados pela socióloga Maristella Svampa, no qual o direito à cidade é progressivamente restringido e o espaço central passa a atender prioritariamente aos interesses do capital imobiliário, do entretenimento e do turismo.
No caso do turismo e do lazer, é importante destacar que, mesmo em uma cidade global como São Paulo, essas dimensões poderiam ser pensadas de forma mais plural, acessível e democratizada, valorizando a diversidade social, cultural e territorial do centro. No entanto, o que se observa é um modelo de turismo orientado por lógicas globais de consumo, voltado a um público previamente selecionado, como turistas e moradores de maior poder aquisitivo, eventos corporativos e circuitos culturais higienizados, que acabam por excluir práticas populares e modos de vida que não se enquadram na imagem da cidade-espetáculo.
Em síntese, o que se busca não é ampliar o acesso ao centro, mas retirá-lo dos pobres, dos dissidentes, dos corpos não aceitos e daqueles que não consomem conforme as expectativas do mercado, para entregá-lo a uma cidade cenográfica, mais lucrativa, mais controlada e, consequentemente, menos diversa.
Quem sempre esteve no centro?
Antes mesmo de se constituir como centralidade urbana, os espaços que hoje compõem a região central de São Paulo já eram ocupados por populações indígenas e, posteriormente, por populações negras, como resultado direto do processo colonial e do legado da escravização. Esses territórios foram fundamentais para a formação material, econômica e simbólica da cidade, ainda que as presenças indígenas e negras tenham sido sistematicamente apagadas, subalternizadas ou tratadas como não pertencentes à narrativa oficial do urbano. Com o avanço da urbanização e o apogeu econômico que consolidou o centro como espaço de poder político, administrativo e financeiro, essas populações passaram a ser progressivamente deslocadas e controladas. O centro adquiriu status de centralidade urbana ao mesmo tempo em que reproduzia a lógica herdada da escravização, tolerando corpos negros e indígenas sobretudo como força de trabalho, mas negando-lhes o direito à permanência, à fruição e ao pertencimento pleno ao espaço central.
Após o declínio desse ciclo de centralidade econômica, o centro passou a ser ocupado de forma mais intensa por trabalhadores, moradores de baixa renda, populações negras, migrantes e imigrantes, ambulantes, artistas populares, movimentos sociais, pessoas em situação de rua e redes informais de sociabilidade. Nesse período, consolidou-se como um espaço vivido, sustentado pelo trabalho, pela moradia, pela cultura e pelo lazer popular, ainda que marcado por conflitos e profundas desigualdades. Esses grupos não apenas habitaram o centro, mas o produziram social e culturalmente, mantendo-o vivo justamente nos momentos em que o poder público e o mercado passaram a classificá-lo como degradado ou abandonado. As ocupações urbanas, os comércios populares, as festas, os cultos, os encontros e as práticas culturais cotidianas constituíram formas legítimas de uso do centro, ainda que tenham sido sistematicamente deslegitimadas, criminalizadas ou invisibilizadas.
Nesse sentido, afirmar que o centro precisa ser reocupado ignora tanto sua ocupação originária quanto a permanência popular que sustentou o território após a perda de seu status econômico. A meu ver, o que está em curso não é uma reocupação, mas um processo de substituição social, no qual essas presenças passam a ser ameaçadas por dinâmicas de mercantilização, controle e exclusão associadas ao urbanismo neoliberal e à transformação do centro em mercadoria.
Quem disputa o centro — e por quê?
O centro de São Paulo é disputado por atores que sustentam projetos de cidade profundamente distintos. De um lado, estão o mercado imobiliário, as empresas de entretenimento e turismo, investidores privados e políticas públicas orientadas pela lógica neoliberal, que passam a enxergar o centro como um ativo econômico estratégico. Para esses agentes, a disputa se concentra no controle do solo urbano, da imagem da cidade e dos usos do espaço, com vistas à valorização imobiliária, à exploração comercial, à atração de eventos e à inserção de São Paulo nos circuitos globais de consumo e turismo.
De outro lado, estão movimentos de moradia, trabalhadores, ambulantes, artistas independentes, populações negras, migrantes, pessoas em situação de rua e coletivos culturais, que disputam o centro como lugar de vida, permanência e direito. Para esses grupos, o centro é território de moradia, trabalho, cultura, memória e lazer, e não um produto. A disputa se dá, portanto, pela permanência no espaço urbano central, pelo reconhecimento das práticas populares e pelo direito à cidade.
Essa disputa evidencia que o conflito não é apenas espacial, mas também político e simbólico, pois envolve a definição de para quem a cidade é produzida. O centro torna se o palco onde se confrontam a cidade como mercadoria e a cidade como bem comum, tornando visíveis tanto os efeitos do neoliberalismo urbano quanto as formas de resistência que emergem frente a esse modelo de produção do espaço.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko - Tesãozinho Inicial na rua, 2024
Quanto a sua questão, o centro de São Paulo nunca deixou de ser ocupado. Historicamente, ele foi o coração econômico, político e cultural da cidade, com intensa circulação de trabalhadores, comerciantes, moradores, artistas e grupos populares. Desde a época da São Paulo colonial até hoje, o centro sempre teve dinâmicas sociais e culturais pulsantes, mesmo nos períodos de valorização imobiliária ou de abandono parcial de edifícios.
Então, por que insiste a narrativa de “reocupação”? Há alguns fatores que explicam isso:
Narrativa neoliberal de vacância e abandono
O centro é retratado como um espaço vazio ou desocupado para justificar intervenções privadas e projetos de valorização imobiliária. Essa narrativa ignora a presença de moradores de baixa renda, trabalhadores informais, artistas e movimentos sociais, dando a impressão de que o centro precisaria ser revitalizado ou ocupado novamente por investidores ou elites.
Construção de legitimação para concessões e projetos privados
Ao chamar a ação de reocupação, cria-se um argumento político e econômico: se o espaço está vazio, é preciso trazer investimento privado, eventos e entretenimento, como ocorre com a concessão do Vale do Anhangabaú e a atuação da WTorre Entretenimento. Dessa forma, o espaço público é transformado em ativo urbano lucrativo sob a justificativa de revitalização.
Esquecimento ou invisibilização das populações populares
Movimentos de moradia, ocupações culturais e usos informais do centro são frequentemente esquecidos na narrativa dominante, como se a cidade estivesse inativa até a chegada de grandes empresas ou projetos turísticos. Isso reforça a ideia de que apenas a iniciativa privada poderia dar vida ao centro, enquanto práticas históricas de resistência e sociabilidade popular são minimizadas.
Produção simbólica e política da cidade
Narrativas de reocupação também servem para reconfigurar a memória urbana, apresentando o centro como um espaço neutro, pronto para consumo e lazer corporativo, em vez de um território em disputa, historicamente ocupado e transformado por diferentes grupos sociais.
Legado indígena e negro na ocupação do centro
Como já foi dito, antes mesmo de se constituir como centralidade urbana, os espaços que hoje compõem a região central de São Paulo já eram ocupados por populações indígenas e, posteriormente, por populações negras, como resultado direto do processo colonial e do legado da escravização. Esses territórios foram fundamentais para a formação material, econômica e simbólica da cidade, ainda que suas presenças tenham sido sistematicamente apagadas da narrativa oficial do urbano. Com o avanço da urbanização e o apogeu econômico que consolidou o centro como espaço de poder político, administrativo e financeiro, essas populações passaram a ser progressivamente deslocadas e controladas. Após o declínio desse ciclo de centralidade econômica, o centro passou a ser ocupado de forma mais intensa por trabalhadores, moradores de baixa renda, populações negras, migrantes e imigrantes, ambulantes, artistas populares, movimentos sociais, pessoas em situação de rua e redes informais de sociabilidade. Esses grupos não apenas habitaram o centro, mas o produziram social e culturalmente, mantendo-o vivo nos períodos em que o poder público e o mercado passaram a classificá-lo como degradado ou abandonado. Nesse sentido, afirmar que o centro precisa ser reocupado ignora tanto sua ocupação originária quanto a permanência popular que sustentou o território após a perda de seu status econômico.
Disputa pelo centro
O centro de São Paulo é disputado por atores que sustentam projetos de cidade profundamente distintos. De um lado, estão o mercado imobiliário, as empresas de entretenimento e turismo, investidores privados e políticas públicas orientadas pela lógica neoliberal, que enxergam o centro como um ativo econômico estratégico. Para esses agentes, a disputa se concentra no controle do solo urbano, da imagem da cidade e dos usos do espaço, com vistas à valorização imobiliária, à exploração comercial, à atração de eventos e à inserção de São Paulo nos circuitos globais de consumo e turismo. De outro lado, estão movimentos de moradia, trabalhadores, ambulantes, artistas independentes, populações negras, migrantes, pessoas em situação de rua e coletivos culturais, que disputam o centro como lugar de vida, permanência e direito. Para esses grupos, o centro é território de moradia, trabalho, cultura, memória e lazer, e não um produto. A disputa se dá, portanto, pela permanência no espaço urbano central, pelo reconhecimento das práticas populares e pelo direito à cidade. Essa disputa evidencia que o conflito não é apenas espacial, mas político e simbólico, pois envolve a definição de para quem a cidade é produzida. O centro torna-se o palco onde se confrontam a cidade como mercadoria e a cidade como bem comum, tornando visíveis tanto os efeitos do neoliberalismo urbano quanto as formas de resistência que emergem frente a esse modelo de produção do espaço.
Direito à cidade, moradia, cultura e lazer
A realidade do centro de São Paulo evidencia que moradia, cultura e lazer se entrelaçam como estratégias de afirmação do direito à cidade. Movimentos sociais urbanos e ocupações enfrentam a lógica excludente do neoliberalismo, criando novas formas de viver coletivamente, promovendo inclusão, resistência e construção de alternativas sociais e culturais. Embora essas práticas surjam principalmente entre parcelas da população mais excluída, São Paulo ocupa posição de destaque no setor de entretenimento, sendo hoje aarece entre as cidades latino-americanas com maior numero deeventos internacionais e está entre os grandes centros de eventos do mundo. Nesse contexto, concessões de espaços públicos, como o Vale do Anhangabaú, representam oportunidades estratégicas para a iniciativa privada investir em infraestrutura urbana e explorar economicamente áreas centrais. Por meio desses contratos, empresas assumem a manutenção, gestão e ativação desses espaços, garantindo visibilidade e retorno financeiro, ao mesmo tempo em que se apresentam como agentes de revitalização urbana. Historicamente marcada por imóveis ociosos e processos de desvalorização, a região central passou a ser percebida como território estratégico de investimento para empresas do setor de eventos e entretenimento, como a WTorre Entretenimento. A presença dessas empresas cria redes consolidadas capazes de transformar espaços públicos em locais multifuncionais, combinando atividades culturais, gastronômicas e de lazer com exploração comercial. As concessões funcionam, assim, como ativos urbanos que
integram a cidade à lógica do mercado global de entretenimento, priorizando rentabilidade e visibilidade em detrimento de usos sociais mais amplos. Esse modelo evidencia a transformação neoliberal do espaço urbano, em que áreas centrais são geridas como ativos econômicos. Por um lado, há investimentos significativos em “infraestrutura” e programação; por outro, surgem riscos de privatização parcial, consumo seletivo e exclusão de grupos populares que historicamente ocupam a região central, suscitando debates sobre acesso público, direito à cidade e função social do espaço urbano.

Fotografia por AJ Santa Rosa - Tesãozinho Inicial na rua, 2024
Recomendação para assistir e ler:
documentário O QUE É NOSSO - Reclaiming the Jungle

livro Babado forte: 35 anos de cultura jovem no Brasil - Erika Palomino


