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Vetor Entrevista: Tuxe

  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Puxando inspirações dos lugares em que viveu, visitou e tocou, Tuxe traz seu primeiro EP "CEM POR CENTO", um experimento particular entre house, techno, bass e referências brasileiras de música eletrônica.


Texto e entrevista por Pedro Paulo Furlan

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko


São Paulo, 20h30. No fim do ano passado, o produtor e DJ baiano Tuxe lançou “CEM POR CENTO”, um dos EPs mais emblemáticos da cena underground em 2025. Unindo sua perspectiva “multi-regional e multi-facetada”, como o mesmo descreve, o projeto apresenta uma cena eletrônica que abraça ritmos desde o techno, ao funk, ao pagodão baiano.


Sentando para conversar com ele, Tuxe me conta que o processo de desenvolvimento das quatro faixas que compõem seu EP de estreia - “Attention Leak”, “Cem Por Cento”, “Bassline Update (feat. KAPP)” e “Nada A Pulso” - foi um de vencer suas inseguranças e muita auto-exploração.


“Foi um processo de persistência e frustração, principalmente”, Tuxe afirma, dando uma risadinha, mas, deixando claro a honestidade da resposta: “Tive que vencer todas as minhas inseguranças de abrir o software e mexer com teoria musical, por isso, fui fazendo uma por uma”.



“Fui lá, mexi, picotei, adicionei camadas até eu poder me ver naquele som ou ter uma história com aquilo”.


Para Tuxe, sua produção musical tem como cerne exatamente isso: a busca por algo que ele teria vontade de escutar na pista ou que vê parte de sua história refletida - ou, como é o caso das faixas do EP, os dois. Com 18 minutos de duração e transições non-stop entre as tracks, “CEM POR CENTO” é uma apresentação do que o artista traz para as cenas que habita.


Representando sua conexão pessoal com a música latina e os espaços undergrounds, Tuxe apresenta também sua versão da cena. O EP se enraíza em conexões interpessoais e na criação de uma comunidade que se espelha nas músicas e nas inspirações por trás das faixas.


“O underground é o lugar onde vejo pessoas que vem de um contexto parecido, que tem histórias parecidas, que são queer ou que compartilham minhas referências”, Tuxe aponta: “É a contracultura contraposta ao universo heteronormativo, binário”. 


Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko


DE FAIXA A FAIXA, TUXE MOSTRA SEU MUNDO


“CEM POR CENTO” começou com a primeira música, “Attention Leak”. Produzida enquanto Tuxe fazia aulas de produção com Mari Herzer, residente da Mamba Negra e marco da cena underground, essa faixa foi o ponto de origem do EP, expondo a realidade do produtor enquanto habitante de São Paulo e parte da cena paulistana, inserindo referências de dembow e texturas de samples brasileiros, desafiando o purismo mecânico do techno.


“Estava aqui em São Paulo, estudando, mas, trabalhando muito com os lançamentos da Tandera”, Tuxe me conta, falando sobre a gravadora da qual é co-fundador, Tandera Records. 


Focada em artistas latinos e que trazem essa influência cultural em sua música, a label foi uma inspiração para o artista em “Attention Leak”: “Alguns instrumentos ou ferramentas musicais traduzem bem a estética sonora de um lugar ou de uma época e sinto que os samples packs aqui no brasil são um registro interessante da nossa cena atual. quis dar a minha própria interpretação a alguns deles, principalmente com a Tandera em mente”.


A segunda música, a faixa título, por sua vez, descreve parte da multi-regionalidade de Tuxe, puxando referências de seu crescimento na Bahia e Sergipe, sendo muito fã de rock e da Pitty,  e de seus últimos anos vivendo em São Paulo, onde interpreta uma conexão forte entre a saturação de timbres do funk automotivo ao das guitarras de bandas de rock. Durante nossa conversa, o artista cita diversos DJs e artistas que fizeram parte de sua formação musical, creditando eles, em parte, pelo seu som.


“Acho que é incrível de ver o quanto a gente é influenciado por nossos amigos, pela cena a nossa volta, também foi assim que parte do som do EP foi construído”



Inspirado por sua passagem por Londres e o restante da turnê europeia do ano passado, Tuxe criou “Bassline Update” com KAPP. “É uma batida que me colocou nessa memória de estar em Londres e nas festas que fui pela Europa. Vivi alguns vários clubes escuros com muita fumaça e suor enquanto estava fora do brasil e essa música traduz um pouco da sensação de dançar de olhos fechados nesses espaços”, Tuxe me conta, apontando a experimentação física e de memória como combustível para suas produções.


Para fechar o projeto, o produtor decidiu mergulhar em suas raízes baianas e seus anos vivendo em Aracaju. Explorando seu primeiro encontro com a música eletrônica, sendo ela na forma do arrocha, brega e pagodão baiano, Tuxe abraçou o desafio de incorporar esses gêneros na sua produção atual.


“Não é uma música eletrônica quatro por quatro e os grids são mais quebrados"”, ele explica quando pergunto sobre as diferenças no processo de produção: “Mas, quando terminei, fiquei muito feliz de conseguir trazer essa parte da minha história”.


“Essa geografia musical acompanha cada música, contando cada pedaço da minha história”.


No projeto, que flui de faixa em faixa com transições tal qual num set, Tuxe conta sua história como se a estivesse narrando em voz alta, sem pausas.



 
 
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