Vetor Entrevista: Dry
- 26 de mai.
- 4 min de leitura
Afeto e regionalidade são os pilares da arte de Dry. Com a presença de 16 amigos e artistas, "dj prensado”, o novo álbum da sergipana Dry, destaca a importância artística de refletir de onde ela veio e quem está ao seu lado
Texto e entrevista por Pedro Paulo Furlan

São Paulo, 20h. Com mais de 15 anos de carreira na discotecagem e na produção musical, a artista sergipana Dry acaba de lançar seu mais novo álbum “dj prensado”, que conta com inúmeras participações da comunidade underground. Ao sentar para falar com ela, meu maior objetivo era apresentar sua trajetória até chegar ao seu novo projeto de uma maneira que não só fizesse sentido, mas, também respeitasse seu trabalho na cena.
Para ela, sua carreira é algo que está intimamente trançado com suas movimentações de vida pessoal e com o resultado final que ouvimos em “dj prensado”. “A narrativa desse álbum é sobre afeto”, Dry começa me explicando: “É sobre entender a necessidade do afeto na nossa vida. E por isso eu acho que faz muito sentido ele estar rodeado dos meus amigos”.
Com nomes como GDZ, Clementaum, MÍLIAN DOLLA, K-Oh e mais, as participações em “dj prensado” também contam a trajetória de Dry. Ao longo dos seus anos como artista musical, Dry fez sua marca na cena e foi conhecendo outros nomes e crescendo juntos - então, para produzir o novo álbum, a artista decidiu contar sua história e pontuar onde ela se junta a de outros produtores, amarrando tudo com o afeto que sentem um pelo outro.
“Às vezes olho em volta e fico assim: ‘Meu Deus, todas as pessoas que eu admirava antes se tornaram meus amigos’. É muito doido”

“Ia morrer se não tentasse”
Dry começou a criar e produzir 16 anos atrás, em Sergipe - seu estado de nascença. Envolvida pela música desde criança, sua paixão pela música eletrônica nasceu ao lado de sua conexão com seu computador, onde começou a produzir totalmente sozinha, com apoio de videoaulas no Youtube.
No início de sua trajetória, a artista foi de produzir montagens de música para as turmas na gincana da sua escola, medleys para coreógrafos e dançarinos de sua cidade e tocar em festas privadas no ensino médio, para estourar na internet com seus remixes e acumular milhares de seguidores no SoundCloud - foi ali que ela viu a possibilidade de trabalhar com isso.
“Eu tava tão nessa vibe de fazer música a todo custo nesse sentido”, ela me conta: “Percebi que era isso que eu precisava fazer da minha vida, ou ia morrer se eu não tentasse”.
É nesse momento de nossa conversa que Dry me para e diz que precisa contar sobre duas experiências em específico - nas quais foi vaiada ao tocar. Foi na UFS, Universidade Federal de Sergipe, que a artista foi vaiada pelo público ao chegar para tocar com suas roupas femininas e sua existência mesmo: “Era dissidente demais para eles, eu acho. Vi que o tipo de linguagem que eu uso causava um incômodo muito grande para essas pessoas específicas e isso tem total a ver com o fazer música sendo LGBT, né?”.
Falando sobre sua saída de casa devido a sua identidade LGBTQ+, refletimos sobre a impossibilidade de ignorar o impacto que a existência queer tem nas nossas vidas, especialmente para Dry que também é uma pessoa não-binária racializada. Mas, para ela, isso também é uma de suas maiores forças: “Minha identidade, ao mesmo tempo que limita meus acessos, é a raíz da minha habilidade de me comunicar com muitos grupos diferentes”.
“Por ocupar esse lugar do limbo identitário, consigo promover uma espécie de liberdade na pessoa que me consome”.

A artista, que já produziu para uma banda de K-pop brasileira, discos de rap, e conseguiu cavocar seu próprio lugar no underground brasileiro, é um daqueles nomes que são impossíveis de ignorar. Já tendo passado por Curitiba, Dry mora agora em São Paulo e tornou-se um marco para quem é da cena.
“Esse álbum inclusive é uma materialização desse meu tempo aqui, sabe? Conseguindo aumentar mais ainda a minha rede de pessoas que eu amo e com quem eu trabalho”.
“Lembrar as pessoas que tudo é do Brasil”
Lançado no final de março, "dj prensado” mostra uma Dry em completo controle, responsável pela produção, mixagem e masterização de todas as faixas - além da curadoria dos artistas que estão presentes no álbum. Foi assim que ela conseguiu criar um disco que equilibra, em seu cerne, dois aspectos fundamentais da sua arte: o afeto e a regionalidade.

“Tentei priorizar muito as pessoas que não são de São Paulo, mas moram aqui”, ela me conta, quando pergunto sobre esse processo de curadoria dos 16 produtores presentes no álbum: “Essa cidade é um lugar de encontros nesse sentido cultural”. Com essa presença de nomes migrantes, Dry mergulhou na regionalidade do que hoje em dia podemos chamar de música eletrônica brasileira.
Em “dj prensado”, Dry e os artistas parceiros conseguem provar de uma vez por todas que o som produzido é brasileiro, usando elementos de gêneros como funk, arrocha, além de instrumentação como bacurinhas, amplamente presentes no axé e forró.
“Tenho uma preocupação com o meu som de sempre lembrar, para as pessoas que estão ouvindo, que tudo é do Brasil”.
Fazendo parte de uma cena em constante crescimento, o mais novo álbum de Dry também é uma prova da capacidade do underground brasileiro de alcançar novos patamares e sempre se mutar. E disso, ela se orgulha muito: “Por mais que eu ainda esteja muito longe de onde quero chegar, onde cheguei, já é muito mais longe do que qualquer pessoa de onde vim chegou na música eletrônica”.


