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Vetor Entrevista: Guyzin

  • 11 de jun.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 16 de jun.

Entre a nostalgia da música eletrônica dos anos 2000 e a energia das pistas brasileiras, Guyzin apresenta Powered by Music, seu primeiro EP autoral. Na entrevista, o artista fala sobre imigração, identidade, liberdade criativa e como sua experiência no Brasil ajudou a redefinir sua relação com a música.


Fotografia por : Tatá Guarino e styling por: Naska Regina


Powered by Music é mais do que um EP de estreia. O trabalho marca um momento de transformação na trajetória de Guyzin (Guy Assif), reunindo influências que o acompanham há anos sob a perspectiva de quem decidiu atravessar o mundo para começar uma nova vida no Brasil. Entre memórias da cultura clubber dos anos 2000 e a experiência cotidiana das pistas brasileiras, o artista encontra uma linguagem própria e mais definida do que nunca.


Na entrevista a seguir, Guyzin fala sobre o processo de construção do EP, a relação com a cena eletrônica brasileira e as experiências que ajudaram a moldar sua visão artística nos últimos anos.


Pra começar, queria que você se apresentasse um pouco através desse EP: quem é o Guyzin de “Powered by Music” e quais experiências e inspirações ajudaram a construir esse projeto?


O Guyzin de Powered by Music é a versão mais completa, madura e definida que já existiu até hoje. A música sempre foi a força que moveu a minha vida, seja nas filas para comprar álbuns dos artistas que eu amava, nos mixtapes que eu gravava para os amigos que tiravam carteira de motorista ou, mais recentemente, na decisão de me mudar para o Brasil e construir uma nova vida aqui.


Depois de muitos anos explorando meu gosto musical, experimentando diferentes caminhos e entendendo melhor o meu processo criativo, senti que era o momento de lançar minha própria música. Esse processo coincidiu com uma experiência muito intensa de imigração, autoconhecimento e transformação pessoal.


Há dois anos me mudei para o Brasil para abrir a DOIDO Records. Foi uma das primeiras vezes que deixei minha intuição me guiar sem olhar para trás. E foi exatamente assim que nasceu Powered by Music. A mudança para o outro lado do mundo, o contato com uma nova cultura e a necessidade de me reinventar me deram a confiança para seguir minhas ideias até o fim.

Mesmo depois de tocar em diferentes lugares do mundo, foi vivendo o Brasil, absorvendo sua cultura, sua pista e sua relação tão intensa com a música, que entendi qual é o som que realmente me representa.


Fotografia por : Tatá Guarino e  styling por: Naska Regina


O EP mistura referências muito diferentes — do electro-pop dos anos 2000 ao Tribal, funk brasileiro e guaracha. Quais artistas, cenas ou movimentos, tanto do Brasil quanto de fora, foram mais importantes na construção da identidade sonora desse trabalho?


Uma das coisas mais especiais durante a produção deste EP foi me reconectar com as referências que me fizeram apaixonar pela música eletrônica. Com artistas como Daft Punk, Yelle, David Guetta, Tiësto, Bob Sinclar e Will.i.am, revisitar esses sons foi essencial para entender o que me inspirou desde o começo.


Ao mesmo tempo, chegar ao Brasil me deu o espaço e a liberdade para explorar diferentes vertentes da música eletrônica que me trouxeram muita inspiração e novas referências. Passei a frequentar, praticamente todos os finais de semana, festas e eventos completamente diferentes entre si, com públicos, tamanhos, sonoridades e atmosferas próprias.


Seja em festas como Kevin, Novo Affair e Tesãozinho, em São Paulo, ou Lâmina e Mariwo, no Rio de Janeiro, fui apresentado a sons extremamente interessantes e inovadores, além de uma cena underground LGBTQIA+ vibrante e única, que só tem no brasil. Por outro lado, eventos como Selvagem, SVRVR e Gop Tun me mostraram uma vertente mais mainstream da música eletrônica, reunindo publicos diferentes. E, claro, as grandes festas de Tribal, como a High, The Home, Guapo e Black, que competem facilmente (e ganham) com qualquer circuito internacional e me impressionaram pela intensidade, pela energia e pela quantidade de camadas sonoras construídas com um único objetivo: fazer as pessoas dançarem.


Cada uma dessas experiências abriu uma nova porta para mim e despertou ainda mais curiosidade musical. Muitos desses gêneros já faziam parte da minha trajetória antes da mudança, mas existe uma diferença enorme entre acompanhar uma cena de longe e vivê-la diariamente. Quando você mora aqui e se permite circular entre diferentes comunidades, sentindo-se pertencente a cada uma delas, especialmente graças à receptividade incrível do público brasileiro, você ganha uma perspectiva e uma inspiração difíceis de encontrar em qualquer outro lugar. Foi desse encontro entre minhas referências eletrônicas dos anos 2000 e a cultura de pista brasileira que nasceu a identidade sonora de Powered by Music.


Fotografia por : Tatá Guarino e  styling por: Naska Regina


Sua mudança para o Brasil parece ter redefinido sua linguagem artística. O que existia no seu som antes da mudança e o que só passou a existir depois de viver aqui?


Até o meu nome artístico nasceu no Brasil. Durante uma visita antes que eu me mudei pra ca, minha amiga Alice começou a me chamar de “Guyzinho”, e eu achei aquilo perfeito. Gostei da ideia de chegar para tocar e as pessoas descobrirem que o “Guyzin” era, na verdade, um cara de mais de 100 quilos.


Inclusive, a conexão musical com o Brasil também começou muito antes da mudança. Há cerca de seis anos, quando a música eletrônica passou a dominar meus sets, comecei a mergulhar no funk, eletrofunk e tribal brasileiro. Foi nessa época que conheci artistas que marcaram minha trajetória e se tornaram amigos, como Rkills e GDZ (Cyberkills), Samu, Dry, Sammy Dreams, Clementaum, DJ Bassan, DJ Caio Prince, Adame DJ, Laza, Felippe Guerra, Rafa Rosa e outros. O trabalho deles foi uma grande fonte de inspiração para mim e influenciou diretamente minha visão sobre música eletrônica.


Mas eu sabia que só conseguiria encontrar minha própria identidade vivendo aqui. Existe uma grande diferença entre admirar uma cena à distância e fazer parte dela. Viver a pista, acompanhar produtores locais e observar como o público reage à música me ajudou a consolidar um som que mistura a nostalgia da eletrônica dos anos 2000 e 2010 com a intensidade, os sintetizadores e a energia da música eletrônica brasileira.

Foi isso que me levou a criar música para a pista: música feita para dançar, se divertir e se expressar com liberdade.


Você descreve “Powered by Music” como um projeto que ocupa um espaço entre o underground e o mainstream. Como você lida com essa ideia de pertencer a múltiplos espaços ao mesmo tempo?


Antes de tudo, essa é uma sensação que eu sempre vivo pessoalmente. Sou uma pessoa em que masculinidade e feminilidade se misturam de formas diferentes dependendo do dia, seja através do comportamento ou da forma de me vestir. Ao mesmo tempo, tenho uma aparência tradicionalmente masculina. Por isso, muitas vezes sinto que estou no meio do caminho:  mainstream demais para alguns espaços underground e underground demais para alguns ambientes mainstream. Isso aparece não só na minha identidade pessoal, mas também na forma como as pessoas enxergam meu som, meus bookings e até minha presença dentro das cenas que frequento.


Mas eu gosto desse lugar. Gosto de explorar essa fronteira e de não ser facilmente categorizado. Acho que o fato de eu não ser algo simples de definir, ou seja, pessoas me definiram e depois realizam que não é necessariamente certo,  torna meu trabalho mais interessante e desafiador.


Quando cheguei ao Brasil, encontrei uma cena que estava justamente começando a misturar públicos, gêneros e referências de forma muito natural. Foi algo que eu não via com tanta força em outros lugares do mundo e talvez seja um dos motivos pelos quais me sinto tão em casa aqui.


A pressão para se encaixar em um gênero ou estética específica ainda existe, mas percebo que muitos dos artistas mais interessantes de hoje fazem exatamente o contrário. Sempre fui assim. Nunca gostei de ficar preso a um único gênero musical ou a uma única identidade artística. Sempre preferi explorar, misturar referências e deixar a música me levar para novos lugares. Hoje, não vejo essa sensação de pertencer a múltiplos espaços como um conflito, mas como uma das minhas maiores forças criativas. Meu objetivo é manter uma identidade artística clara, mas ela nunca foi, e provavelmente nunca será, uma linha reta.


Fotografia por : Tatá Guarino e  styling por: Naska Regina


Como a linguagem visual do EP conversa com o som e com essa ideia de liberdade? Como foi o processo criativo do projeto?


O processo criativo de Powered by Music foi o mais natural e prazeroso que já vivi. Quando finalmente decidi lançar minha própria música, tudo aconteceu de forma muito orgânica. Uma faixa levou à outra, uma colaboração levou à próxima e, sem perceber, o universo do EP começou a se formar.


Ao mesmo tempo em que criava as músicas, comecei a reunir referências visuais. Muitas vieram da estética da música eletrônica dos anos 2000 e 2010, mas principalmente da minha vida no Brasil. Os botecos e lanchonetes que eu frequentava, mesmo pra me alimentar mas principalmente pra ter conexão social , sempre me fascinaram porque representam uma parte muito autêntica da cultura brasileira. Durante anos fotografei esses lugares, observando as pessoas, as conversas, a música e a energia que existe neles.


Quando ouvi as músicas prontas, essas imagens foram as primeiras que vieram à minha cabeça. Foi isso que me levou a trabalhar com o Rafael (@rafo.sz) no mundo visual do projeto, conectando essas referências brasileiras à estética digital e eletrônica que também está presente no som do EP.


Também queria que São Paulo estivesse presente nesse universo. Por isso convidei o fotógrafo Otávio e a stylist Naska para construir essa narrativa visual comigo. A mudança para o Brasil me deu liberdade para explorar diferentes lados da minha identidade, e esse sentimento acabou aparecendo tanto na música quanto na imagem, igual na capa de “Linda”, primeiro singles do EP.


No fim, a linguagem visual de Powered by Music funciona como uma extensão do próprio som: ela mistura nostalgia e modernidade, referências locais e globais, elementos do cotidiano brasileiro e estética eletrônica. Acima de tudo, tanto o visual quanto a música falam sobre liberdade, a liberdade de experimentar, misturar influências, estar em espaços novos e se reinventar sem medo.



 
 
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