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Studio Visit: Damien Malard

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Entre França e Brasil, Damien Malard investiga os encontros e conflitos entre natureza, ciência e ação humana, criando paisagens imaginárias a partir das transformações do mundo natural.



Artista francês radicado em Paris, Damien Malard é mestre em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Sua prática se desenvolve num diálogo entre leitura sensível e cientifica da paisagem, questionando a tecnicidade da natureza.


Fortemente influenciado pela flora tropical brasileira e pelas tensões entre natureza exuberante e modernização, Damien constrói ambientes ficcionais onde o natural e o artificial se encontram, se transformam e entram em conflito. Entre cores saturadas, formas híbridas e paisagens marcadas pela ação humana, seu trabalho questiona as relações de poder entre humanidade e natureza, incorporando também perspectivas sobre vulnerabilidade, adaptação e sobrevivência.


Em conversa com a Vetor, o artista fala sobre o trânsito entre França e Brasil, sua relação com a paisagem tropical, os processos de mutação e hibridização e as ideias de vulnerabilidade, adaptação e sobrevivência presentes em sua prática.



Entre França e Brasil, onde você sente que sua obra “respira” melhor — e o que essa fricção de territórios faz com a sua visão de mundo?


Damien Malard: Eu acho que respira melhor no Brasil, porém que essa fricção faz nascer no meu trabalho uma geografia metafórica que é nem aqui, nem lá, mas um território híbrido fora do tempo, suspenso com um certo onirismo.


Paisagem tropical sem exotismo é possível? Quais estratégias visuais você aciona para tensionar desejo e violência colonial na mesma imagem?


DM: Existe, o exotismo é um ponto de vista para se referir ao « distante », « o desconhecido ». Na história da arte o exotismo (tal como o orientalismo) traduz fantasmas coloniais violentos mas acredito que é possível para os artistas que habitam esse imaginário, de desconstruir esse ponto de vista e reinvestir esse registro. Eu não tenho a pretensão de conseguir falar de violência colonial, mas apenas tendo a devolver a ideia de uma natureza independente e autônoma diante a uma figura humana vulnerável.


O choque entre natureza exuberante e modernização aparece como ruído material. Como você traduz essa tensão em cor, textura e escala?


DM: Para mim se trata de desenvolver um diálogo para fazer conviver formas e cores de registros diferentes. Acho que passa por exemplo na associação do vocabulário visual do « natural » e do « artificial ». Usando cores luminescentes, radial, saturadas que remete a algo nuclear, para representar plantas, por exemplo. O dilema de cada produção é achar uma harmonia nisso tudo e fazer funcionar visualmente.


Mutação e hibridização são motores do seu imaginário. Esses futuros que você propõe são ensaios de esperança, alertas ou protocolos de adaptação?


DM: Acho que isso se trata mais de processo, de adaptação para se desfazer de diferentes tipos de dominação. Refletindo o potencial das figuras naturais diante um mecanismo de opressão. Isso vira até uma problemática queer em certo modo, é o que me atrai também nesse processo.


A transformação no seu trabalho é biológica e estética, mas também social. O que artistas e comunidades queer te ensinaram sobre “métodos de sobrevivência” que a natureza já pratica?


DM: Então, acho que com certeza ser queer influencia esse processo. Acho que se trata de vulnerabilidades, luta e feridas.

Esse meu imaginário visual é quase apocalíptico, implicando de fato a noção de sobrevivência. Acho que a comunidade queer me ensinou a ocupar espaço e conseguir abraçar minhas vulnerabilidades. Isso potencializa a noção de mutação, de evolução, e salvação no meu trabalho também.


Europa x América do Sul: o que cada público lê — ou recusa ler — no seu trabalho?


DM: Olha, é sempre muito difícil saber qual vai ser a leitura alheia, porque no meu trabalho eu deixo um lugar muito grande à interpretação pessoal, através desse ambiente onírico, por exemplo. Mas eu acho que na Europa não vai ser tão óbvio ver uma paisagem sofrida quando se trata de tropical. Pelo que eu vi, na américa latina, as pessoas têm uma interpretação muito mais pessoal das imagens geridas, quase identitárias.




 
 
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