top of page

Vetor Mag takes WHOLE Festival

  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Faltando poucos dias para o início da edição de 2026, revisitamos o WHOLE Festival 2025 a partir da perspectiva de artistas brasileiros que passaram pelo lineup do ano passado e compartilharam suas impressões sobre um dos principais encontros da cultura queer contemporânea.


Texto por Arthur Cobat e Fotografia por Matheus Lima



O evento tornou-se um dos principais destinos da comunidade LGBTQIAPN+, recebendo pessoas de diferentes partes do mundo que escolhem o festival para celebrar seus desejos e identidades, coexistindo e criando um espaço de diversidade através de várias expressões artísticas.


Em um momento em que discussões sobre gênero, sexualidade e direitos LGBTQIAPN+ seguem sendo alvo de disputas políticas em diversas partes do mundo, o WHOLE se tornou um símbolo de coletividade que se constrói através de uma programação atenta as necessidades mais específicas do universo queer, desde talks sobre como cuidarmos uns dos outros dentro da comunidade LGBT+; painéis sobre a importância de exercitar a intimidade física; ou você também pode participar de uma tenda de workshops que te ensinam a flertar pessoalmente.



A relação do festival com o sexo e a nudez também faz parte dessa proposta. Longe de uma lógica puramente provocativa, o WHOLE entende a autonomia sobre o próprio corpo como uma dimensão fundamental da experiência que o festival propõe nas áreas de convivência, na pista de dança e nos espaços de experimentação. É um ambiente quase utópico diante de um cenário global marcado por tabus e vigilância sobre corpos dissidentes. E é nesse lugar que se cria uma ponte muito próxima ao que vivemos no Brasil, um país onde anualmente temos uma forte expressão sexual, musical e de liberdade durante o Carnaval, mas também esbarramos com uma onda de conservadorismo no cotidiano.


A música eletrônica periférica – especialmente o funk - se consolidou como o principal expoente de contemporaneidade do Brasil no exterior e, consequentemente, a presença brasileira passou a ocupar um papel cada vez mais relevante no WHOLE Festival. Isso acabou refletindo na curadoria do evento, que esse ano acontecerá dos dias 17 a 20 de Julho e terão artistas nacionais como Vita, Katy da Voz e as Abusadas, Alírio, Vicx, Cyberkills, Kabulom, Kontronatura, Trindade e OMOLOKO. A produção também anunciou a primeira edição do WHOLE em São Paulo, ainda sem data divulgada.



Na última edição do festival a Vetor Magazine esteve presente e acompanhou a crew de DJs brasileiros que estiveram por lá, formada por Bonekinha Iraquiana, DJ Lorrany, Glau, Laza, IDLIBRA, Kbral, Mílian Dolla, Clementaum, Badsista e Paulete Lindacelva. Essa participação evidencia como a cena underground brasileira se tornou uma referência global na construção de festas e artistas que representam além da música, suas identidades regionais e de gênero. Não por acaso, o WHOLE também dialoga com uma geração de eventos como a Horny, Kevin, Dando, Lust, Pornceptual, que mantém acesa por aqui a mesma compreensão do corpo como uma ferramenta política.


O festival deixou de ser apenas um destino para amantes da música eletrônica e tornou-se uma espécie de laboratório internacional da cultura queer, conectando coletivos de diferentes lugares em torno de uma pergunta comum: como pessoas LGBTQIAPN+ podem resistir e existir de forma segura e festiva? Uma das respostas possíveis está no começo do texto.



"Toquei no WHOLE em 2024 no Palco Crane e no Palco Performance com o Loic. Foi uma experiência surreal tanto para curtir, quanto para tocar. Eu e a Clementaum somos amigas há muito tempo, temos muito match musical e a gente nunca tinha tocado juntas, mas em 2025 o festival nos convidou para fazer um long set. A pista do Crane é muito gostosa, é um palco que tem mais diversidade de gêneros musicais, o reflexo disso vem muito na pista também. As mais estranhas e mais doidas se sentem confortáveis naquele palco. Muita gente até hoje me manda mensagem falando que aquele b2b foi icônico. Esse dia dedicado ao Brasil é uma forma da gente se sentir em casa com os amigos e colegas de profissão de trabalho que as vezes a gente não consegue ter muito contato no Brasil. É um festival que potencializou minha carreira e é uma baita oportunidade para todos os DJs que se apresentam ali"

Mílian Dolla




"Tocar no WHOLE foi um dos pontos altos entre as minhas vivências na Europa até agora. Primeiro de tudo o festival em si, pelo fato de ter sido fundado por uma brasileira, já traz um toque mais consciente como um todo. No palco Cran teve um dia só de brasileiros, parecia um grande encontro de uma galera latina. E mesmo que tivesse essa expectativa de ouvir música brasileira/latina, eu me senti muito confortável de fazer o que eu queria, de fazer o meu trabalho com a visão e expressão de Brasil que eu carrego e tenho interesse em oferecer. A liberdade sexual do festival é muito bonita. No domingo tinham muitas pessoas mais velhas, de 50 a 70 anos, e foi muito lindo ver essas pessoas nuas, celebrando a própria existência. Na minha cabeça imagino várias coisas sobre como essas pessoas chegaram nesse lugar de liberdade"

IDLIBRA



"Participar do WHOLE foi um novo marco para minha carreira. Embora eu já tivesse ido para Europa acompanhando a Batekoo e Deize Tigrona, dessa vez fui como artista solo e representando minha fase mais voltada para música eletrônica. Achei o publico receptivo e as pessoas muito interessadas no funk. Além disso a estrutura também me impressionou, desde o soundsystem até os palcos e opções de sonoridades diversas. Outra coisa foi perceber pessoas da Europa inteira no festival, que deu diversidade mais interessante ainda. A energia das pessoas dançando 24 horas e se divertindo de boas. A criatividade na cenografia dos palcos e a locação eram muito divertidos de explorar"

GLAU




"Posso dizer que o meu set no WHOLE festival está entre os meus favoritos. Toquei no Crane Stage no domingo e nesse dia a curadoria foi feita pela colombiana ISA GT que convidou somente artistas da América Latina, maioria da Colômbia e eu de brasileiro. Foi uma honra essa conexão. A pista foi uma das mais insanas que já toquei, a galera se jogando muito e dançando sem parar. Sentir aquela energia naquele momento foi surreal. Me diverti muito tocando músicas que passaram pelo funk brasileiro, Latin club, tribal, techno e guaracha. O público era muito diverso, tinham pessoas de várias partes do mundo. É muito incrível a conexão que se cria com o público numa sintonia que vai guiando todo mundo através da música"

LAZA



“Foi muito significativo tocar no WHOLE, vivemos grandes momentos ali. Eu já tinha ouvido falar do festival e me apresentei em uma pista que tinham várias pessoas latinas talentosas. Levei uma proposta diferente de som, toquei coisas que geralmente não toco e o público recebeu muito bem, se jogaram. É um festival muito importante para nossa comunidade LGBTQIAPN+”

DJ Lorrany



"Tocar no WHOLE festival foi uma coisa totalmente diferente de tudo que já fiz. Além de ter sido meu primeiro festival internacional, foi minha primeira vez na Alemanha. Por mais que no primeiro momento eu tenha me sentido desconfortável, é uma experiência realmente livre que a gente vai ficando confortável de verdade e sem julgamentos. Eu encerrei o Palco Crane e o público abraçou, ficou no front comigo, além de terem gostado muito de bruxaria e do hardtechno que toquei no final"

Bonekinha Iraquiana



"Minha primeira relação com o festival foi em 2022 quando fui para Europa. Me conectei com a Raquel (umas das fundadoras do WHOLE), ela me falou da existência do festival e comentei sobre a Batekoo. Ela me apresentou o Palco Crane, que foge um pouco da musicalidade eletrônica europeia, traz um rolê mais latino e brasileiro. Foi um match perfeito. Toquei com a Batekoo nesse palco, acompanhei outros amigos que iriam tocar no festival, vivemos intensamente, foi uma utopia que eu não estava preparado, mas de certa forma também estava. E desde então eu sempre vou ao WHOLE, pois hoje ajudo a Raquel na curadoria do palco Crane. Essa curadoria veio de uma forma muito natural, pois primeiro levamos a Batekoo e em 2024 e 2025 conseguimos levar alguns artistas que tocaram pela primeira vez em um palco internacional, assim como em 2026 focamos em artistas que ainda não tiveram essa oportunidade de tocar fora do nosso país"

Rafa Balera



 
 
bottom of page