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História viva: Arquivo Transformista preserva histórias de nomes fundamentais da noite LGBTQIAP+

  • 20 de mai.
  • 7 min de leitura

Formado a partir dos acervos de Aloma Divina, Kelly Cunha, Gretta Starr, Marcinha do Corintho e Victoria Principal o projeto se propõe a manter viva a memória das artistas e do movimento.


Texto e entrevista por Pedro Figueiredo


Segundo a definição do dicionário Michaelis, o termo “tranformista” é a definição para “ator que se transforma em mulher, usando roupas e adereços femininos, geralmente em cena, no teatro ou em casa de espetáculos.” Há quem defina a palavra pela caracterização mais discreta, menos marcante que a das drag queens.


O fato é que entre as décadas de 1960 e 1980 vivemos o auge da arte transformista. As artistas dominavam as boates de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro — além de outras cidades mundo afora — e participavam de programas televisivos. Silvio Santos e Bolinha eram alguns dos apresentadores que dedicavam quadros às artistas.


Com o passar do tempo, no entanto, as performances perderam espaço na TV e nas boates, as artistas já não eram tão requisitadas e o transformismo deixou sua fase mais pulsante.


Fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


A partir disso, uma iniciativa do Acervo Bajubá, que trabalha desde 2010 com a preservação e registro de memórias das comunidades LGBTQIA+ brasileiras, nasceu. O Arquivo Transformista é um acervo que remonta as trajetórias de cinco expoentes do movimento: Aloma Divina, Kelly Cunha, Gretta Starr, Marcinha do Corintho e Victoria Principal.


A pesquisa para a idealização do projeto foi encabeçada por Angel Natan — que conversa com a Vetor nesta reportagem — Alexandre dos Anjos, Marcos Tolentinto e Yuri Fraccaroli. A pesquisadora, que trabalha com o Bajubá desde 2020 conta que a ideia de colaborar com as pessoas em vida.


“A gente já vem colaborando com elas em outros processos. Entrevistamos a Greta em 2020 para um podcast, em 2022, a gente entrevistou a Marcinha, para uma coleta de testemunho para o Memorial da Resistência, que teve uma grande repercussão. Disso a gente desenvolveu uma coleção com o Memorial, 34 entrevistas no estúdio, não só com travestis, mas outras pessoas LGBTs, que também ajuda a encabeçar esse projeto direto e fazer essas entrevistas,” explica Nat.


Naty e Gretta em fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


Ainda em 2022 surge um projeto batizado de Porta de Boate, a pesquisadora conta que se o objetivo era reunir o que se tinha em revistas, livros e documentos sobre as artes drag e transformista em São Paulo. O resultado virou uma exposição no espaço Bananal Arte. 


“A gente tinha muito essa vontade de criar um arquivo para para essa memória das travestis, que ainda é uma vertente que eu gostaria de explorar mais,” diz Nat. A idealização do Arquivo começa de fato em 2024 com o acervo de Divina Aloma, que havia doado todas as fotografias, documentos e registros históricos de sua trajetória para uma faculdade no Rio de Janeiro. O material, no entanto, ficou parado por mais de seis anos.


“Quando a gente se aproxima dela, eu falo: ‘Nossa, tem tanta coisa significativa, ainda mais por ser uma artista negra, como é que a gente vai acessar esse material?’ Então, eu procuro essas pessoas responsáveis para entender onde está esse material, se eu teria acesso a ele. E a resposta foi que o material ainda estava na fila para esperar da entrada, para ser tombado,” relembra a pesquisadora. “E eu falei para essa pessoa da faculdade que a Loma tem uma parceria muito significativa com a gente, queremos escrever um livro sobre ela e seria muito viável esse material ficar conosco.”

Fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


Para a reconsideração da doação, por se tratar de uma pessoa de uma pessoa viva, um trâmite legal precisou ser feito e o material veio para São Paulo. “Eu achei que seria pouco [material], acho que tem mais de 900 fotos dos anos 1960 aos anos 2000 até atualidades que retratam muito dessa história da noite de São Paulo, da noite do Rio, de outros estados, da vida dela na Europa, do casamento, da religião, então acesso a outros espaços como a fé.”Nat explica que Aloma foi uma das primeiras transformistas a trazer a temática religiosa para os palcos, com números que homenageavam entidades como Oxum.


A partir do acervo de Aloma, Nat procura Kelly Cunha e Greta Starr, que também abrem seus arquivos fotográficos. A pesquisadora ressalta que o Arquivo Transformista é, sobretudo, um projeto sobre a vida. “A gente precisa dar flores para as pessoas em vida,” diz. “Um dos grandes motivos é conseguir apresentar elas para o mundo público e deixar um registro que vai da nossa existência enquanto a internet existir.”


Divina Aloma em fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


As estrelas


Todo o acervo contido nas páginas do Arquivo Tranformista só foi possível graças às artistas que cederam suas fotos e compartilharam suas histórias. Conversamos com três delas, Divina Aloma, Gretta Starr e Kelly Cunha, que falaram à Vetor sobre a importância de terem suas histórias eternizadas em um projeto como esse.


Fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


Natural de Salvador, Aloma possui uma carreira que se estende por mais de cinco décadas. A artista chegou ainda na infância ao Rio de Janeiro e morou na rua até ser acolhida por Joca, que trabalhava em teatros da capital fluminense como vestidora e a ensinou o ofício. “Ela começou a me ensinar a fazer bainha de roupa. Ela fazia as roupas e eu fazia as bainhas,” relembra.


Quando questionada sobre esse ter sido o momento em que ela foi virando artista, Aloma responde de maneira categórica: “Eu já tinha alma de artista!” E que alma! A estrela foi descoberta pela atriz, cantora e apresentadora Rogéria, e passou a se apresentar em casas como o Teatro Rival no Rio de Janeiro e na Medieval, icônica boate LGBTQIAP+ de São Paulo. 


Foi na boate que Aloma criou um dos mais bonitos capítulos de sua história: o espetáculo “Black Is Beautiful”. “Quando eu fui para o medieval me disseram que não aceitavam negros lá,” relembra. “Eu fui e fui aceita. Nós fazíamos shows às  terças, quartas e quintas. Sexta e sábado a boate era discoteca. E domingo, uma de nós tinha por obrigação fazer dois meses de especial.”


Victoria Principal em fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


“Quando chegou no meu [especial], eu botei só negros. Eu quebrei a regra da casa. Aí elas falaram assim: ‘Duvido que vai acontecer, vai fazer sucesso, botando só preto aqui dentro.’ E eu fui o maior sucesso. Enquanto os especiais delas foram dois meses, o meu ficou seis meses em cartaz.” A artista também chegou a se apresentar na Itália. Hoje, ainda na ativa, Aloma terá sua história retratada em um livro.


Gretta Starr, outro nome importante da noite paulistana, veio de Santos para a capital do estado para cursar o ensino superior e começou a frequentar espaços como a boate Medieval. A carreira começou definitivamente na cidade natal em uma boate chamada Fugitivo e tendo como madrinha Tanya Starr. “A diretora artística do Fugitivo era Tanya. E aí a notícia logo correu: ‘Olha, tem uma travesti novinha que arrasa na dublagem é bonita.’ Aí eu comecei a ir para a Fugitivo.” A diva foi a vencedora do concurso Miss Universo Gay no ano de 1979, o que elevou sua carreira a um novo patamar.


Kelly Cunha e Marcinha do Corintho em fotografias cedidas pelo Arquivo Transformista


Gretta também relembra duros períodos, como a repressão causada pela ditadura militar, que ela faz questão de ressaltar, não era tão pesada quanto as travestis passavam em São Paulo. “Elas eram presas, muitas sumiam porque eram mortas, a Operação Tarântula  levava elas para longe, sumiam com elas, tudo isso,” recorda a artista que chegou a fazer shows para censores do regime.


A arte de Gretta a levou para o outro lado do mundo. A artista foi para o Japão, onde se sentiu em casa. “Parecia que eu tava no meu país, na minha terra. que era tudo a tecnologia nova, era muito legal. Conheci artistas do mundo inteiro, travestis, garotas.”


Gretta Starr em fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


Em um momento marcante de sua vida, Gretta, já de volta ao Brasil e afastada dos palcos, volta a se apresentar na Blue Space, onde revelou viver com HIV. “Eu percebi que isso seria libertador. Pensei muito antes, porque podia queimar as pessoas que tinham ficado comigo, que não talvez não entendessem. Pensei em amizades, porque a coisa tava tão feia nessa época, que eu lembro que no salão onde eu trabalhava, dois amigos meus profissionais maravilhosos morreram de HIV e clientes não sentavam nunca mais nem na cadeira dele, para fazer o cabelo com outras cabeleireiras,” recorda.


'Fundo Marcinha do Corintho', fotografia cedida pelo Arquivo Transformista


“Eu tinha essa preocupação, mas eu me pus em primeiro lugar. Eu falei assim: ‘Se eu não comentar isso com alguém, esse estigma vai me seguir. Esse fantasma vai ficar em cima de mim, em cima do meu ombro. E eu tenho que abrir o meu bico e falar para todo mundo.’” A artista fez uma performance apresentando o clássico “Memory”, de Cats.


Kelly Cunha começou sua carreira como cabeleireira, chegando a trabalhar com nomes de destaque como a já citada Rogéria e Ronnie Von, mas foi destaque nos concursos de beleza, foram mais de 30 vitórias. “Ia ter um concurso na época em Santos. Eu, novinha, né? Pus uma peruquinha chanel e lá fui eu concorrendo. E uma peruca atrás de aplique que era da Aretusa, mulher do Ronnie Van, que eram meus amigos, minha cliente na época. E aí eu ganhei,” relembra aos risos.


A artista relembra que sua semelhança com Rogéria, somada a estrutura corporal franzina, renderam a ela o apelido de Rogerinha. “Na noite que eu a conheci, foi em 1968, a Érica falou: ‘Rogéria, era essa bichinha que eu falei que parece que você’. Ela olhou para a minha cara e falou: ‘Ai, toda bichinha que bota o peruca loira  fica com cara de Rogéria. ’Depois disso fica uma amiga, sou uma amiga mais de 50 anos," relembra a artista.

Ela também se destacou como atriz, contracenou com Antônio Fagundes e integrou os elencos de A Super Fêmea (1973), As Delícias da Vida (1974), filmes de pornochanchada. A artista encerrou sua carreira com uma performance no Medieval.

 
 
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