Vetor Entrevista: Alírio
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ALÍRIO PERDE O MEDO. Em seu primeiro EP solo,"Sonhos Expressos”, a produtora e DJ - e co-fundadora da Tandera Records - mescla a euforia e o etéreo em cinco faixas que expressam sua nova confiança em si mesma
Texto e entrevista por Pedro Paulo Furlan

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko
São Paulo, 20h45. Alírio é um nome que qualquer pessoa presente na cena underground brasileira reconhece - você pode não saber tudo sobre ela, mas, você já viu ela em um line up das mais diversas festas pela capital paulistana (e agora pelo mundo). DJ, co-fundadora da label Tandera Records (composta por ela, Guza, Tuxe, Fortunato e Ylia) e produtora musical, Alírio está lançando seu primeiro EP solo “Sonhos Expressos”.
Quando eu sento para conversar com ela, Alírio se lembra de me ver em uma edição da Bicuda, antro do underground em Campinas, e relembramos o momento - porque é assim que a artista é: conectada à cena de uma maneira inegável, tanto online quanto offline. Para uma presença tão reconhecível nesse espaço, o lançamento de seu primeiro projeto é algo grande e antecipado.
Com cinco faixas carregadas da pesquisa de Alírio, “Sonhos Expressos” destaca-se pela sonoridade que mescla a euforia das pistas de clube, com uma energia quase de sonhos, resultando em uma mistura etérea que é quase feérica. Criando tensão e a aliviando algumas batidas depois, a produtora compôs um universo que reflete o seu momento atual - ouça "fantasma (fantasia)” abaixo.
“Esse EP é uma resposta a tudo de bom que vivi, sabe?”, ela aponta, sorrindo: “Ele fala sobre um amadurecimento, e reflete uma Alírio mais confiante e segura”.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko
“MÚSICA ELETRÔNICA É LIBERDADE”
“Sempre tive muita insegurança de lançar algo sozinha, sempre sentia que não era bom o bastante”, começa ela quando pergunto sobre o que a levou a lançar esse EP agora: “Sempre ficava tipo buscando pessoas para para fazer junto”.
A história de "Sonhos Expressos” começa com um desses projetos em conjunto - com o produtor carioca Brunossa. Segundo Alírio, antes de tudo, ela planejava lançar um EP em colaboração com Brunossa, mas, os planos mudaram com quanto mais ela ia produzindo.
Seu primeiro projeto foi criado ao longo dos últimos dois meses de 2025 - “foi quando virou uma chave”, ela me conta: “comecei a fazer música de um jeito muito orgânico, não conseguia parar”. Então, em uma reunião com seu selo, a Tandera, Alírio recebeu o apoio necessário para apostar em um EP completamente solo.
“Se for olhar para cinco anos atrás, eu nem imaginava que eu teria coragem de enfrentar o que enfrentei para chegar aqui”, a artista me explica, entrando no conceito do EP, que reflete uma análise do que estava passando durante a produção e durante sua quase uma década de atuação e envolvimento na psicanálise. “Refletir sobre tudo isso fez eu entender que esse projeto era sobre perder esse medo, e entender que música eletrônica é liberdade".
“Acho que 'Sonhos Expressos’ veio respeitando o processo da associação livre, tal qual na psicanálise, e era a hora certa”.
Essa conexão com a psicanálise também se estende para a capa - produzida pelo Estúdio Margem - na qual Alírio traça referências ao psicanalista Jacques Lacan, objeto de estudo da artista.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko
EUFORIA + ALÍVIO
Ao longo do EP, as faixas funcionam como um verdadeiro espelho de um set de Alírio, mas, condensado de uma maneira a refletir também a pessoa por trás das batidas. Conversando sobre imbuir beats com emoções e sentimentalidade, aponto sobre a sonoridade quase feminina que traça uma linha ao longo do projeto, tanto na escolha das batidas, quanto na energia.
“Minha transição caminha junto com minha entrada na música”, reflete Alírio sobre a presença de sua identidade como mulher trans na sua produção: “Com isso vem uma sensibilidade e sensualidade que influenciam inegavelmente meu som”.
“Fui vivendo esses processos juntos, me entendendo como artista e como figura feminina”.
Em “Sonhos Expressos”, essa feminilidade aparece representada em cada percussão, construídas de maneira a expressar a filosofia que domina os sets de Alírio: o contraste. Inspirada pelos beats pesados do techno clássico, o desafio desse EP foi equilibrar a euforia com momentos de alívio.
“Sempre procuro juntar a euforia que a pista de dança representa com essa camada mais introspectiva", ela explica, apontando que essa criação também veio das inspirações que acumulou durante suas viagens e visitas a outras cenas além da brasileira, dando destaque à cena latina.

Fotografia por Ivi Maiga Bugrimenko
PAZ NA TERRA NO LOLLAPALOOZA
Co-fundadora da label Tandera Records, com Guza e Tuxe, Alírio é uma admiradora e credora fiel na conexão entre as sonoridades e comunidades latinas pelo mundo - por isso, “a missão que temos com a Tandera é de registrar essa música e história que estão sendo feitas na América Latina, com destaque para o Brasil”.
Conhecida pelo seu VA “PAZ NA TERRA”, a label encontrou um local sólido dentro da cena, e situa-se em uma posição de destaque e interesse do mundo inteiro. “Com a Tandera, era primeiro criar um espaço para lançar música e, segundo, fazer as cenas conversarem entre si”, aponta Alírio.
E, agora, a produtora vai levar a Tandera ao palco do Lollapalooza, o maior festival de música no Brasil, em um line acompanhada por outros nomes do underground, como Entropia, Zopelar e IDLIBRA. “Foi muito emocionante para mim”, afirma Alírio sobre ver os nomes da cena no line ao seu lado: “Me fez lembrar da primeira vez que eu fui para São Paulo, de Minas, que foi para ir no Lolla”.
Finalizando nosso papo com uma pergunta sobre esse set tão importante, Alírio revela que ainda não tem tudo organizado para essa presença, mas, “obviamente o destaque vai ser para a Tandera e para tudo que estamos lançando aqui no Brasil”.