Vetor Entrevista: Antínoo
- vetormagazine
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Antínoo transforma memória urbana, afeto e apagamento cultural em música
Texto e entrevista por Guilherme Higashizima

fotografia por Otávio Guarino
Em um momento em que cidades ao redor do mundo começam a reconhecer oficialmente clubes noturnos como espaços culturais, Antínoo revisita uma memória íntima e coletiva da noite paulistana em “L’AMOUR”, nova versão da canção “Boite”. Inspirada no antigo L’amour — inferninho que funcionava na Rua Bento Freitas, no centro de São Paulo — a música nasce da experiência pessoal, mas se expande como um gesto de preservação da memória afetiva e cultural da cidade.
O fechamento e a posterior demolição do L’amour e do Baiuca’s, bar que funcionava como sua extensão, deram lugar a um empreendimento imobiliário voltado para aluguel de curta duração. O impacto desse apagamento atravessa a canção, que conecta o fim de um amor à perda do próprio espaço físico, como se ambos compartilhassem a mesma ausência.
Com arranjos mais românticos e nostálgicos, “L’AMOUR” propõe a música como arquivo sensível — algo que guarda aquilo que a cidade insiste em apagar. Em conversa com a Vetor, Antínoo fala sobre afeto como resistência queer, a pista de dança como espaço político e a coragem de revisitar o passado para imaginar futuros possíveis.

capa L'AMOUR por Kakubo
“L’AMOUR” nasce de uma memória muito específica. Em que momento essa lembrança deixou de ser apenas pessoal e passou a pedir uma forma artística?
A música, pra mim, é como uma terapia ocupacional. É através das letras que escrevo que, muitas vezes, eu organizo meus pensamentos e consigo olhar para experiências que vivi com mais clareza. A maioria das minhas músicas nasce de traumas, alguns leves, outros profundos. Essa lembrança ganha forma de música quando preciso processá-la na minha cabeça, entender de fato o peso que essa experiência teve na minha vida e, a partir daí, busco transformar a dor em algo bonito.
Existe um cuidado grande com o romantismo, mesmo quando o tema é perda ou algo sensível. O afeto é, para você, uma linguagem de resistência queer?
Com certeza. Nós, homens gays, temos o afeto negado desde muito cedo: o pai que não beija nem abraça como a mãe faz com a filha, a adolescência em que não podemos namorar, beijar ou viver um romance de forma aberta e plena. E, mais tarde, já adultos, muitas vezes acabamos focando demais nas experiências sexuais e perdemos a capacidade de deixar o afeto do outro nos alcançar de verdade.
Eu conheci muitos homens com apego evitativo na minha vida, e isso me fez muito mal. Sempre tentei não repetir esse comportamento com outras pessoas e evitar que esse ciclo de violência continue. Prover afeto e, principalmente, estar aberto a receber afeto é, sim, um ato de resistência, numa comunidade em que o afeto é tão negado.
Você acredita que a música consegue registrar memórias que a cidade insiste em apagar? O que uma canção pode guardar que um arquivo não consegue?
Sim, a música tem esse poder da oralidade. A melodia tem essa capacidade de se impregnar na cultura popular e ir passando de pessoa pra pessoa, de geração em geração, como um vírus. Muitas vezes, é através de uma canção que conseguimos entender uma época: pelos instrumentos usados, pelas gírias, pelo sotaque cantado, pelo gênero musical.
Quem nunca se sentiu numa máquina do tempo ouvindo uma música que não só te emociona, mas te transporta para outro lugar? Pra mim, a música é a forma de arte mais poderosa em transportar as pessoas no tempo e no espaço, porque ela não foi feita para ser apenas compreendida, e sim sentida. É um nível de experiência que, às vezes, nem o cinema alcança.
Tem uma música que ouvi muito no ano passado, chamada “Gorof (Elixir)”, de uma banda somali dos anos 70 e 80. Quando fui atrás da história desse grupo, fiquei impressionado. Ouvindo as músicas deles, eu sentia exatamente a atmosfera da Somália nos anos 80 — um país socialista e progressista, completamente diferente do que se tornou hoje.

fotografia por Otávio Guarino
Seu trabalho sempre dialoga com memória e fusão de referências. Revisitar o passado também é uma forma de projetar futuros possíveis?
Revisitar o passado é fundamental para projetar o futuro e não repetir os antigos erros. Se todo mundo entendesse melhor o que foi o fascismo nos anos 30 e 40, talvez a gente não estivesse vivendo hoje essa onda de conservadorismo e esse neofascismo que volta a aparecer em tantos lugares. A falta de história alimenta a ignorância.
Mas eu também acho que cada dia é diferente do outro, e cada época tem seus próprios dilemas. Refletir para onde estamos indo é importante, mas também é preciso se permitir ser levado pela vida, porque, por mais que a gente planeje, a gente não controla completamente como o futuro vai se desenrolar.
Ao longo da sua discografia, a pista de dança aparece como espaço político. A música ainda pode ser um lugar de resistência queer em tempos tão conservadores?
Em 2016, em Orlando, nos EUA, houve um massacre em uma boate gay. Cinquenta pessoas, provavelmente em sua maioria queer, foram mortas. Aquilo me chocou profundamente, porque eu comecei a frequentar boates gays aos 15 anos. Era o único lugar em que eu me sentia livre de verdade, onde eu podia ser quem eu sou e estar rodeado de pessoas como eu, sem a violência e o julgamento que existiam em todos os outros espaços, como a escola, o shopping e minha casa. A boate sempre foi o meu santuário.
Eu enxergo a pista de dança como um espaço político porque a política também se manifesta como controle social. E, numa pista de dança, esse controle não nos alcança da mesma forma. Ali, a gente pode dançar, se drogar, viver a vida fora dos padrões que nos são impostos através da violência, seja ela física ou psicológica.
Em 2026, você lança um disco em inglês, com outro nome artístico. O que muda quando você cria como Diou, e o que permanece essencialmente Antínoo?
Quando comecei a lançar minhas músicas, decidi usar um pseudônimo por duas razões. A primeira é que Antínoo caiu no meu colo por uma grande coincidência: eu tatuei uma escultura do Antínoo antes mesmo de conhecer a sua história. A segunda é que eu tinha medo da recepção que eu teria como artista. Cantar, escrever e expor tudo isso ao mundo, aos amigos e à família exige muita coragem, e eu precisei construir um personagem para encontrar essa força.
Quando decido lançar um disco já com o meu nome de batismo, Diou, é porque essa coragem já está consolidada dentro de mim, sem que eu precise me justificar ou me questionar por causa dos outros. Mesmo assim, vou continuar fazendo música também como Antínoo, porque esse personagem se tornou uma parte fundamental da minha vida — a parte mais bonita dela.


